Carta #004: a mentira que você conta sobre quem você é
Enquanto sua identidade não cresce, o ambiente governa você. Mas existe um caminho para virar causa, não consequência
Salve! Aqui é o Tamer.
Estamos na área gourmet da minha casa, em Teresópolis. Um grupo intimista, uma imersão de um dia, o Ânima acontecendo ali, vivo, pulsando. Gente que veio de longe, gente que se abriu, gente que chegou com perguntas que não fazem barulho, mas fazem um enorme estrago.
No meio de um exercício, meu aluno me olha e solta essa:
“Tamer, a PNL é um pouco limitada, né? Minhas filhas tinham fobia de barata e de lagartixa. Você resolveu as duas. Mas eu gosto muito de cerveja. Às vezes bebo além da conta. Isso me causa problemas.”
A turma inteira em silêncio. Os olhos fixados em mim.
Para quem não conhece, PNL significa Programação Neurolinguística, e eu sou da linha sistêmica, a PNL Sistêmica, que olha para o ser humano de forma integrada e considerando todos os seus contextos de interação.
Eu conheço esse aluno há anos. É muito querido. É inteligente. É íntegro. É sincero. E nunca, absolutamente nunca, trouxe essa questão específica para a mesa. Isto é, a pergunta vinha de um lugar mais fundo, aquele lugar onde normalmente ninguém gosta de olhar por muito tempo.
Na verdade, este não é o primeiro caso em que um(a) aluno(a) chega dizendo que a PNL não resolveu algo que, na verdade, estava no nível da identidade.
Em todos esses casos, sem exceção, 100% das vezes, a pessoa não teve coragem, vontade ou disposição de trazer a verdade para o jogo. Ela omitia justamente porque não queria trabalhar naquilo. E tudo bem. Eu respeito isso. Faz sentido. São questões profundas, que mexem onde dói, que exigem encarar a si mesmo(a) com uma honestidade que pouca gente quer ou sustenta.
Em contrapartida, tratei com sucesso questões importantes, como abusos sexuais, assédio moral e tentativas de suicídio.
Ele mesmo, o aluno que fez a pergunta, após fazer um treinamento meu, voltado para trabalhar a identidade, parou de beber por um tempo e mudou sua relação com o trabalho. E regrediu. Porque não deu continuidade ao processo por tempo suficiente para fortalecer a nova identidade.
Isso me lembra de algo que vejo há muitos anos. Recebo muitos alunos encaminhados pelos seus terapeutas, mentores e coaches. Todos relatam a mesma coisa: depois de viver o Metamorphosis — minha imersão de inteligência emocional e autogestão, criada para reorganizar aquilo que está bagunçado por dentro, integrar partes e romper padrões limitantes que a pessoa sozinha não consegue quebrar — o processo terapêutico deles ganha profundidade e velocidade.
Tenho uma amiga coach que sempre me diz: “Tamer, eu não sei o que você faz aí, mas é incrível o avanço que tenho com meus clientes depois que passam pelas suas mãos”.
Alguns alunos dizem que o Metamorphosis vale mais do que vinte anos de terapia. E eu acredito neles. Porque o Metamorphosis é, de fato, um grande começo. Um começo transformador. Mas ainda assim é apenas um começo. Se a pessoa não dá sequência, se não sustenta o que despertou, a identidade nova não ganha força suficiente para se manter. E, quando isso acontece, é natural regredir.
Como tudo na vida, em desenvolvimento pessoal não existe mágica. A PNL também não faz mágica e eu preciso defendê-la. Por uma questão de honestidade.
Eu posso dizer com propriedade: a PNL Sistêmica mudou a minha identidade. Hoje, nem me lembro mais da pessoa que eu era, comparado a quem me tornei.
A PNL Sistêmica me tirou de um AVC hemorrágico, das sequelas desse AVC. Mas para isso precisei trabalhar minha identidade a fundo ao longo de anos. Mergulhei na pessoa que eu era para me tornar quem sou agora.
A PNL Sistêmica não é apenas minha principal ferramenta de trabalho, é minha filosofia de vida.
Como psicanalista, conheço outras disciplinas e formas de terapia, mas a PNL Sistêmica é a única que integra de maneira plena, filosófica e prática tudo que conheço. Ela é minha prática, minha filosofia e meu instrumento para transformar vidas, a começar pela minha.
Se você quer entender mais sobre identidade, confira a Carta #003, onde introduzi esse tema.
Voltando à pergunta do meu aluno, respirei e respondi:
A fobia das suas filhas é simples de resolver. É só comportamento. É um encaixe neural que você realinha. Agora… Bebida? Compulsão? Qualquer forma de vício? O buraco é mais embaixo. Isso opera no nível mais profundo: identidade. E identidade não se trabalha com uma técnica ou abordagem isolada. Identidade requer trabalho. Acompanhamento. Constância. Tempo. Às vezes uma vida inteira. E é aqui que muita gente se engana.
Autoconhecimento e autodesenvolvimento não têm fim. Não existe linha de chegada. São processos que acompanham você enquanto você existir. E, quando você entende que desenvolvimento pessoal é trabalho para a vida inteira, você quebra a fantasia infantil das técnicas rápidas e ancora sua jornada numa responsabilidade adulta, que chamo de autorresponsabilidade. O amadurecimento da identidade é sempre contínuo, porque a vida muda, você muda e seus papéis mudam.
Identidade se desenvolve num processo sério, profundo e continuado de autoconhecimento.
Isso pode ser feito com terapias, treinamentos comportamentais, mentorias, a combinação dessas coisas ou qualquer outra abordagem que se aplique melhor a você. Mas é fundamental que seja um acompanhamento consistente, que não se limite a ações isoladas ou eventuais.
A gente cresceu ouvindo uma frase famosa: “O homem é fruto do meio.”
Parece clichê, mas é verdadeira. Aliás, todo ditado popular carrega uma camada de sabedoria que só enxerga quem já sangrou o suficiente para amadurecer.
Dentro da estrutura da PNL Sistêmica, a identidade está no topo; o ambiente, lá embaixo, na base. O ambiente é o chão. A superfície. A moldura onde a experiência acontece. A identidade é a instância máxima: tudo o que você é, sente, acredita, valoriza e sustenta reunidos numa noção de si. Numa autoimagem.
Agora mesmo, enquanto escrevo este texto numa sexta-feira, 28 de novembro de 2025, às 16h48, no meu escritório, o ambiente importa menos do que quem está aqui escrevendo. Eu poderia estar num aeroporto, num café, num hotel, numa praça e isso não faria a menor diferença. O que faz a diferença é quem escreve. E só eu, com minha visão de mundo, poderia escrever esta carta.
Você já pensou nisso?
Mas aqui está o pulo do gato: até a sua identidade crescer e sustentar você, é o ambiente que manda. Ele governa. Ele decide. Ele te leva e te traz como uma marionete que pensa que é livre. Ele suspira e você reage.
E quando isso acontece, sabe o que a gente faz? Culpa o caráter. Culpa a disciplina. Culpa a força de vontade. Acha que deveria se controlar. Que deveria dar conta. Mas não dá. Nunca deu. E nunca dará.
Porque, enquanto a identidade não está madura, o ambiente vence. Sempre. Sem exceção. E aí você pensa que está escolhendo. Mas na verdade você está apenas reagindo.
A PNL Sistêmica tem um princípio básico:
Todo sintoma - físico, emocional ou psicológico - é uma comunicação de como você está em relação ao mundo
Então vamos olhar de frente para a pergunta do aluno. Ele acredita que exagera na cerveja porque gosta muito. Não é isso. Não é sobre gostar. Ele ainda não entendeu que o ambiente escolhe antes dele: o bar ao lado de casa; o convite dos amigos; o ritual da sexta-feira; a cerveja gelada no freezer; a expectativa do primeiro gole. Tudo isso é mais rápido do que a consciência. É um conjunto de gatilhos moldando a ação antes da intenção.
Outro exemplo simples: a pessoa quer ter uma vida saudável. Ela já foi ao nutricionista, já entrou na academia, já prometeu que vai parar de comer doce. Mas guarda uma bomboniere de jujuba na mesa de cabeceira. Tem uma lata de goiabada cascão no armário. Tem 60 unidades de Negresco na despensa. E, todos os dias, no intervalo do almoço, passa na confeitaria para comer uma torta alemã, com café expresso.
Não é fraqueza. É estrutura. O ambiente é mais forte do que ela no nível em que ela está hoje. Simples assim.
E quando eu digo ambiente, não estou me referindo só a contextos físicos. Estou falando também dos ambientes subjetivos: as amizades, o parceiro ou parceira que não te apoia, os grupinhos, as redes sociais, as notícias, as conversas, o clima emocional da casa etc. Tudo isso molda o campo sistêmico que opera debaixo da sua percepção, criando caminhos automáticos e inconscientes.
Enquanto sua identidade está fragilizada, esses ambientes decidem por você.
Por que, Tamer?
Porque uma identidade frágil não sustenta a pessoa (ou o eu) que você precisa ser para transformar o ambiente. E, quando você não tem força suficiente para transformar o ambiente, é o ambiente que te molda.
Então, enquanto você não cresce por dentro e sua identidade ainda não está suficientemente fortalecida para resistir aos estímulos dos ambientes que lutam contra a sua meta e o seu propósito, existe um passo prático que você pode dar agora:
Torne as coisas mais fáceis para você. Mude de ambiente. Mude de rota. Pare de comprar o que te destrói. Tire a tentação do alcance das mãos. Troque suas amizades. Pare de frequentar lugares que sabotam o futuro que você quer construir para você.
Isso não é covardia. Não é fuga. É inteligência.
E tem mais uma verdade dura que talvez você ignore: a maior prisão não é o comportamento. É a história que você conta a si mesmo(a) para justificar os seus comportamentos. A narrativa que protege a compulsão e o vício. A desculpa que valida a fuga.
Há muitos anos, atendi um homem que lutava contra o alcoolismo. Ele e a esposa se referiam a si mesmos assim: “Nós somos dois cachaças”.
Uma forma dolorosa de desqualificação da própria identidade.
Mas, quando sua identidade começa a crescer, as coisas se invertem. Você deixa de ser consequência. Vira causa. Você não se molda ao ambiente. Você define o ambiente.
E, quando isso acontece, a cerveja ou o doce deixam de ser inimigos. Eles viram sintomas de um eu antigo que não tem mais lugar na sua vida. Porque não é sobre parar de beber ou de comer doce. É sobre tornar-se alguém para quem o álcool ou o doce não fazem mais sentido.
A verdade é muito simples: enquanto você não sustentar quem você é, tudo lá fora te governará. Mas, quando você amadurece por dentro, você para de lutar contra o ambiente. Você o transforma.
Então, minha provocação para você hoje é (não para responder secamente, mas para sentir):
Que ambientes te derrubam?
Que ambientes te elevam?
Que ambientes você precisa construir para corresponder ao novo eu que está nascendo em você?
Se é que está nascendo.
A maior mentira que te contaram é que disciplina ou motivação resolvem tudo. Isso é papo de cocôach da internet.
A maior verdade é que o ambiente vence, até o dia em que você se torna suficientemente grande e poderoso(a) e vence o ambiente.
Grande 4braço!
#TamerJunto




Vou incluir na minha autorreflexão noturna "que mentiras eu contei para mim hoje?" rsrsrs. Sensacional! Os diálogos internos são muito muito difíceis mesmo.
"São questões profundas, que mexem onde dói, que exigem encarar a si mesmo(a) com uma honestidade que pouca gente quer ou sustenta." (final do 9º parágrafo)
É essa honestidade que temos orgulho de aplicar a terceiros e muita vergonha em praticar conosco. Texto bastante reflexivo, obrigada.
Para quem já teve a oportunidade de fazer muitos/todos esses treinamentos que cita no texto, a mensagem passada sem dúvida te chacoalha de uma maneira diferente. É um misto de indignação consigo mesmo acompanhada de uma motivação de fazer diferente, de fazer dar certo, de persistir.
Obrigado mais uma vez pela dedicação entregue em cada palavra desse texto.