Carta #013: o sistema operacional da realidade pessoal
Classes, tipos e níveis de crença: o modelo completo para entender a programação do seu software mental
Salve! Aqui é o Tamer.
Na Carta #012, descrevi a paisagem interna dos autossabotadores, os habitantes da mente que governam a partir de protocolos automáticos e inconscientes.
Autossabotadores não são entidades aleatórias. Sua origem, sua estrutura e sua força motriz derivam de um substrato mais profundo, o solo no qual todos esses padrões se enraízam e do qual extraem sua lógica particular e sua razão de ser.
Esse solo é composto pelas coisas em que acreditamos.
Por isso, começo esta carta com uma provocação:
Por que não se discute futebol, religião e política?
A pergunta que abre esta reflexão é um convite a uma investigação sobre a natureza da própria realidade que cada um de nós habita.
Por que certos temas desencadeiam reações tão intensas e imediatas que geram a recomendação social de evitá-los?
A resposta é que não discutimos apenas temas isolados ou estanques, como futebol, religião ou política, mas sim os alicerces invisíveis que dão forma à nossa experiência do mundo.
Discutimos sistemas de crenças.
Segundo a definição lexical, crença é o ato ou efeito de crer, uma convicção íntima, uma certeza.
Talvez a maior dificuldade na comunicação humana seja justamente esse excesso de certezas. Cada certeza funciona como um ponto cego, uma área onde a curiosidade se extingue e a avaliação se cristaliza em julgamento.
Ao longo da história, os maiores conflitos nasceram da colisão entre convicções que se autoproclamaram verdades absolutas.
O indivíduo que opera a partir desta certeza não debate; sua ação se orienta para a conversão, a anulação ou a eliminação daquilo que sua própria convicção já categorizou como erro: pensar diferente.
Uma crença, em sua estrutura fundamental, é uma generalização. É uma conclusão derivada de experiências passadas, sejam elas vividas, herdadas ou absorvidas por osmose cultural ou religiosa e então projetada como regra para o futuro.
O cérebro, em sua busca por eficiência e previsibilidade, toma uma instância específica – uma dor, uma rejeição, um sucesso, um fracasso – e a eleva à categoria de lei universal.
Aquela vez torna-se sempre; aquela pessoa torna-se todas as pessoas. Este mecanismo, originalmente útil para navegar um mundo complexo com agilidade, torna-se uma prisão quando as generalizações se solidificam e se desvinculam de novas evidências.
Uma crença é um programa neurolinguístico
− Valter TAMER
Aqui, reside um princípio central. Crenças não são verdades sobre o mundo, mas sim verdades sobre o nosso mapa do mundo. Elas são as linhas, as legendas e os contornos desse mapa. É uma representação, necessariamente reduzida e subjetiva.
O problema cognitivo surge quando confundimos a representação com a coisa em si, quando tratamos o desenho como se fosse a paisagem. Passamos a viver dentro dos limites do nosso próprio mapa, acreditando que seus rios e montanhas são os únicos possíveis.
É por isso que qualquer bom cartógrafo, e a PNL Sistêmica em seu princípio essencial, afirmam:
O mapa não é o território
Contra crenças não há fatos. A crença não busca validação externa; ela gera sua própria validação por meio de um processo que a PNL Sistêmica chama de profecia autorrealizável.
Ela atua como um filtro perceptivo, direcionando a atenção para os estímulos que a confirmam e ignorando ou reinterpretando os que a contradizem. A pessoa que acredita que o mundo é perigoso notará cada notícia negativa, cada gesto suspeito, tecendo uma tapeçaria de evidências que suporta sua visão. O fato de haver também bondade, segurança e beleza será registrado como uma exceção insignificante, uma anomalia estatística. A crença, portanto, não reflete a realidade; fabrica-a.
Obviamente, esta fabricação não é mágica ou metafísica, mas neurofisiológica. Uma crença consolidada ativa padrões no tronco cerebral que controlam o foco atencional e a resposta emocional. Ela prepara o corpo para um tipo específico de interação com o ambiente.
Por exemplo: acreditar que desenvolvimento pessoal é doloroso prepara o sistema nervoso para a resistência e o sofrimento ao se aproximar não apenas de qualquer conversa sobre o tema, mas de qualquer processo estruturado, como terapia, mentoria ou treinamento comportamental. A experiência será, de fato, dolorosa. A profecia se cumpre. A crença que começou como uma interpretação passa a comandar a biologia da experiência.
É por isso que a distinção crucial não está entre ter ou não ter crenças – o que seria impossível –, mas entre o tipo de sistema que as governa. Ao longo de quase duas décadas e meia de experiência profissional, desenvolvi um modelo para mapear essa arquitetura em três dimensões: as classes que as categorizam por sua localização no sistema, os tipos de crenças, conforme sua natureza e função, e os níveis de consciência que determinam como nos relacionamos com elas.
Essa hierarquia descreve a progressão possível na gestão das nossas próprias construções.
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