Carta #014: a grande mentira que te contaram sobre o pensamento positivo
O personagem que Karnal usa para ridicularizar o pensamento positivo não existe; o que existe é um mecanismo psicológico aplicável
Salve! Aqui é o Tamer.
Há anos, eu queria escrever sobre este assunto. Mas me faltava um gancho, um ponto de partida que fizesse sentido e justiça à complexidade da questão sem transformar o texto num manual seco, distante da vida como ela é.
O gancho veio na carta anterior.
Depois de mergulhar profundamente nas crenças e em como cada um de nós percebe e responde à realidade, o link entre crença, atenção e pensamento positivo ficou martelando na minha cabeça.
Esta carta diz respeito a esse mecanismo, à confusão que se criou em torno do pensamento positivo e ao que está por trás de estruturas como foco, direção e autorresponsabilidade.
Vem comigo.
Enquanto pensava no tema central desta carta, lembrei-me de uma fala do historiador Leandro Karnal, proferida numa palestra e que ficou famosa à época, a qual transcrevo abaixo ipsis litteris:
“Meditação e pensamento positivo podem ter sentido religioso, nunca estratégico. Então, superem o pensamento mágico.
Admiro o pensamento positivo, mas ele é tecnicamente inútil.
Se você tem uma doença grave, não adianta ficar no canto, vibrando positivamente. A doença progride. Se o avião está caindo, não adianta pensamento positivo. Se você não se cuida, o pensamento positivo é errado.
A esperança acompanhada de estratégia é superior à ideia de pensamento positivo, porque ela não apenas pensa positivamente, como esperança, mas ela age, ela transforma, ela vai atrás, ela faz.”
A plateia ri gostosamente e todos voltam para casa aliviados, afinal, alguém com autoridade finalmente desmascarou a farsa desse pessoal da autoajuda.
Existe um personagem que circula há anos por palestras, entrevistas, timelines e na grande mídia. Ele está sempre sentado, apático, fazendo afirmações positivas e repetindo frases de efeito enquanto o mundo desaba ao seu redor.
Só há um problema: esse personagem não existe. É um fantasma, uma caricatura criada para ser ridicularizada.
Karnal parece ter uma certa fixação nesse assunto. Veja a transcrição de um trecho de outra palestra dele, abaixo:
“Muitas vezes dizem: ‘Pense que acontece.’
Façam essa experiência. Fiquem em casa um mês parados, pensando firmemente: eu tenho dinheiro, eu sou feliz, eu sou bonito, eu sou legal. Pensem firmemente 12 horas por dia. E, ao final, vocês terão todas as contas vencendo, uma família à beira do colapso, que não aguenta mais o pensamento positivo.”
Estas falas circulam como se fossem argumentos definitivos. Isso não seria um problema, se não fosse por um detalhe: a pessoa que ele descreve não pratica pensamento positivo; pratica pensamento mágico.
Nos episódios transcritos acima e em todos os outros facilmente encontrados na internet, Karnal demonstra não saber nada ou saber muito pouco sobre o tema.
Há inúmeros trabalhos acadêmicos, inclusive estudos controlados randomizados e meta-análises, tratando extensamente dos benefícios do pensamento positivo estruturado e da meditação. Ignorá-los não é mero ceticismo; é, no mínimo, desconhecimento.
Quanto à meditação, a gente fala outro dia.
Minha análise não é um ataque pessoal ao Karnal, que eu respeito. Apenas não posso deixar de me posicionar, considerando a credibilidade, a influência e, portanto, o peso de uma declaração feita por ele.
Esse é o problema da lacração, de tratar coisas sérias e importantes com superficialidade; de se comportar como especialista em tudo e de propor-se a falar sobre qualquer assunto como se realmente o fosse.
Mais grave ainda é o comportamento de quem ouve e aceita pela credibilidade de quem fala, sem senso crítico, sem critério mínimo, sem submeter a ideia a qualquer exame.
Ninguém que leva pensamento positivo a sério jamais afirmou que pensar substitui o agir.
A confusão, no entanto, é reveladora e expõe a incapacidade de distinguir três fenômenos completamente distintos que o senso comum insiste em misturar: pensamento mágico, pensamento positivo ingênuo e pensamento positivo estratégico.
Sem essa distinção, qualquer discussão sobre o tema é infantil e inútil.
Na Carta #013, mapeei as classes, os tipos e os níveis da relação com crenças, do refém inconsciente ao arquiteto consciente do próprio sistema operacional.
O mesmo princípio estrutural se aplica à atenção. Pois atenção e crença não são entidades separadas; são duas faces do mesmo processo neurocognitivo.
Crenças dirigem a atenção. Atenção fortalece as crenças. O que chamamos de realidade pessoal é o resultado acumulado desse loop, repetido consistentemente ao longo de uma vida.
Se você não compreende esta mecânica, está condenado(a) a operar no piloto automático. Se compreende, pode começar a reprogramá-la.
Antes de descrever os estágios da atenção, porém, é necessário estabelecer uma tese, que não é uma opinião entre tantas outras. É o terreno sobre o qual todo o meu argumento será construído.
Tese: o único domínio direto e contínuo que o ser humano possui ao longo da vida é a direção do próprio foco
Não controlamos eventos, circunstâncias ou resultados. Controlamos o lugar onde colocamos nossa consciência enquanto eles acontecem.
Pouquíssimas pessoas sabem disso. A sociedade moderna, com seu sequestro atencional sistemático, faz de tudo para que você nunca descubra.
Mas minha tese permanece: seu foco é a única coisa que você realmente pode controlar.
Você não controla sua saúde, mas controla onde coloca a atenção enquanto sua mente, seu corpo e suas emoções se mantêm em harmonia ou se recuperam. Não controla o resultado, mas controla o que mantém na sua consciência enquanto o resultado não vem. Não controla o que a vida lhe tira, mas controla o que extrai do que lhe foi tirado.
O que chamamos de controle, na verdade, é negociação.
Você negocia a vida inteira sem perceber. Adia o exame porque tem medo do resultado; aceita um trabalho que já não suporta porque o salário paga as contas; permanece numa relação que acabou porque o vazio de sair parece maior que a dor de ficar e chama isso de escolha ou estratégia. Mas é negociação: você cede um pedaço do que quer em troca de não ter que enfrentar o que não quer.
A diferença observável entre uma pessoa com alto índice de desenvolvimento pessoal e uma que ainda está no início do processo não é o vocabulário, nem o repertório técnico, nem a quantidade de livros que ela leu. É o seu nível de autorresponsabilidade.
O primeiro aprendizado de quem adentra este caminho é: você não é vítima, você é responsável. Responsável não no sentido moral nem jurídico (o óbvio precisa ser dito), mas no sentido etimológico: respondere - a capacidade de responder.
A vida apresenta os desafios e você precisa se perguntar:
Como responderei com o único instrumento que realmente me pertence?
Isso não é uma elucubração ou constatação abstrata. Existe um mecanismo neurofisiológico que a explica: SARA - Sistema Ativador Reticular Ascendente.
SARA: o filtro invisível
SARA (ou SAAR) corresponde a um feixe de neurônios no tronco cerebral responsável por filtrar os onze milhões de bits de informação que nossos sentidos captam a cada segundo e determinar quais deles — cerca de cinquenta — alcançarão o nosso consciente.
Estudos em neurociência cognitiva indicam que nossa memória consciente — o espaço onde manipulamos informações no curto prazo — tem uma capacidade restrita: conseguimos manter e processar, em média, apenas 7 (7 ± 2) blocos simultâneos de informação (George Miller, 1956).
Estudos mais recentes sugerem que o número real é mais próximo de 4 ± 1 (Cowan, 2001).
O SARA obedece rigorosamente ao que definimos como relevante. É assim que nos orientamos nesse mar de informações. E isso é resultado direto das nossas crenças e da nossa direção atencional repetida consistentemente.
A Programação Neurolinguística Sistêmica descreve esse mecanismo com exatidão: o que você coloca no seu foco determina o que você acessa no seu mapa interno e na sua realidade externa. Não no sentido mágico, de atrair, mas de ir em direção ao que se escolheu.
Você já reparou que casais grávidos só enxergam grávidas na rua? Ou que quando decide comprar um carro, começa a ver aquele modelo estacionado em cada esquina? O carro não apareceu por acaso. Ele sempre esteve lá. O que mudou foi o que seu SARA passou a considerar relevante.
Se uma mulher acredita que todo homem é canalha, pode aparecer Jesus Cristo na frente dela e ela não o enxergará. Pior: continuará repetindo o padrão de se relacionar com homens que confirmem sua crença e, consequentemente, seu foco.
Crenças não são apenas pensamentos; são programas neurolinguísticos que filtram a realidade.
Mudar o foco sem mudar a crença é impossível. Mudar a crença sem treinar o foco é ineficaz. Por isso, trabalhar a atenção é trabalhar a arquitetura profunda da experiência humana.
Isso pode ser resumido neste princípio básico da PNL Sistêmica:
A energia flui para onde está a atenção
Esta compreensão é importante, mas operar sobre ela é essencial.
Para isso, desenvolvi um modelo que organiza em quatro estágios a relação entre atenção, crença e autorresponsabilidade. Ele funciona como um mapa: você pode localizar onde está hoje e, mais importante, aonde pode ir.
A seguir, os quatro estágios da direção atencional.
Estágio #1: atenção sequestrada
Neste estágio, a pessoa ainda não sabe que possui atenção. Ela é sua atenção. Ela se identifica plenamente com seus processos mentais. O que aparece diante dos seus olhos ou adentra sua mente ocupa integralmente o palco da sua consciência.
Uma notícia ruim chega e ela passa horas ruminando. Uma crítica é disparada e ela a internaliza como verdade definitiva. Um colega não responde no grupo e ela passa o resto do dia remoendo: será que fiz alguma coisa errada? O marido ou a mulher demora a retornar uma mensagem e o caos se instala: será que ele(a) está me traindo?
O SARA opera sem supervisão, ele simplesmente responde a qualquer estímulo que grite mais alto.
A pessoa nesse estágio não escolhe o que foca; é focada. Ela crê estar apenas sendo realista, quando na verdade está sendo arrastada por um sistema de orientação atencional que a governa e ela nunca aprendeu a pilotar.
O índice de autorresponsabilidade é zero: tudo é culpa dos outros, do mundo ou das circunstâncias.
A pergunta interna dominante é:
Por que isso está acontecendo comigo?
Estágio #2: atenção reativa consciente
Neste estágio, a pessoa já sabe que pode escolher. Ela leu, se informou, acessou algum conteúdo, faz terapia, mentoria ou até participou de algum treinamento comportamental.
Ela compreende intelectualmente que não deveria dar tanta importância a certos estímulos, que ficar ruminando só atrapalha e que o pessimismo crônico é insensatez.
Ela se esforça sinceramente, repete afirmações positivas, pratica a gratidão e busca encarar as coisas com mais leveza.
Ela insiste; funciona por algum tempo, às vezes por semanas. Até que surge uma crise real, um problema sério — uma perda, um fracasso, uma doença — que varre sua frágil estrutura e a arremessa de volta ao estágio #1.
Ela se frustra. Conclui que pensamento positivo não funciona, que otimismo é uma furada, que é autoengano, que ela não nasceu para isso.
A autorresponsabilidade ainda é um conceito, não uma prática: ela até tentou, mas o mundo não colaborou. A culpa retorna para fora.
A pergunta interna dominante é:
Por que não consigo sustentar?
Estágio #3: direção atencional deliberada
Aqui, acontece a virada.
A pessoa descobre que atenção é um músculo que pode (e deve) ser trabalhado e desenvolvido, porque músculos não se fortalecem por decreto, mas por repetição consistente, de baixa intensidade, ao longo do tempo.
Ela para de tentar ser positiva o tempo todo e começa a praticar a direção atencional como uma competência estratégica. Reserva um tempo por dia, cinco minutos que sejam, para sustentar intencionalmente o foco no que funciona, naquilo que a ajuda.
Quando o pensamento negativo surge, ela não o julga, nem resiste; apenas dirige gentilmente a atenção para outra região do seu mapa interno, sem drama, sem culpa.
A principal descoberta desse estágio é que a repetição opera independentemente do seu estado emocional no momento. Você pode ser cético(a), estar cansado(a) ou frustrado(a), mas se sustentar o foco por meio do exercício deliberado da atenção, o SARA registra.
A crença profunda dirige a atenção; a repetição consistente constrói e consolida o novo padrão.
A pessoa ainda pode falhar, oscilar, de vez em quando é arrastada por estímulos intensos, mas agora sabe que a falha faz parte do processo e não invalida o método.
Ela retoma no dia seguinte. E no outro. A consistência, não a intensidade, se torna seu princípio organizador.
A autorresponsabilidade começa a se consolidar: dá trabalho, exige paciência, mas se o problema é meu, a solução também.
A pergunta interna dominante é:
Como posso sustentar por mais um dia?
Estágio #4: maestria atencional
Este é o estágio que Karnal não consegue enxergar, que o pensamento positivo ingênuo não alcança e que a literatura rasa de autoajuda é incapaz de descrever com precisão.
Neste estágio, a direção atencional deliberada, praticada com consistência suficiente, produz uma transformação estrutural no cérebro. As conexões neurais que sustentam o otimismo estratégico tornam-se mais espessas, mais mielinizadas, mais eficientes. O que antes exigia esforço consciente passa a operar com fluidez automática.
A pessoa não precisa mais se esforçar para ser positiva. Ela simplesmente percebe primeiro o que pode ser construído, e só depois o que precisa ser evitado. Seu SARA foi literalmente reprogramado para escanear o ambiente em busca de possibilidades, e não apenas de ameaças, riscos e perigos. Isso não significa que ela negue a realidade.
Isso não é pensamento mágico; é ciência e tem nome: neuroplasticidade.
E é também o ponto em que a autorresponsabilidade deixa de ser um conceito e passa a ser uma forma de estar no mundo. Passa a fazer parte da identidade. A pessoa não apenas age como responsável; ela é responsável.
A diferença entre os estágios #3 e #4 é a mesma que separa um músico que ainda conta as notas de outro que simplesmente toca. A partitura é a mesma; a relação com ela é que mudou.
A pergunta interna dominante (e estúpida) do estágio #1 é substituída por:
Por que não comigo?
Se você se reconheceu nos estágios #1 ou #2, ou quer acelerar sua passagem pelo estágio #3, eu posso te ajudar.
Na minha mentoria, mapeamos juntos onde sua atenção está sendo sequestrada e desenhamos o passo a passo para levar você ao estágio #4.
A caricatura de Karnal
Voltemos ao historiador e sua caricatura.
O que Karnal descreve como pensamento positivo é, na verdade, uma tentativa de estágio #2 sem o suporte da prática consistente.
Alguém ouviu que deve pensar positivo, senta-se por um mês, repete frases e não age. Nada muda. Ele então conclui que pensamento positivo é autoajuda inútil.
O erro é classificatório.
Pensamento mágico é acreditar que a afirmação substitui a ação. Pensamento positivo ingênuo é acreditar que a afirmação, por si só, produzirá ação sem o treinamento atencional correspondente.
Pensamento positivo estratégico é usar a afirmação como instrumento de direção atencional para que a ação seja mais consistente, mais focada e mais alinhada com o resultado desejado.
A pessoa do estágio #4 não se senta no alto da sua apatia fazendo afirmações ou repetindo frases. Ela se levanta e age. Mas antes de agir, treinou seu SARA consistentemente para enxergar, no cenário diante dela, a rota de fuga, a brecha, o recurso disponível, a possibilidade onde outros só veem o abismo.
Ela não age apesar do pensamento positivo. Ela age porque seu pensamento positivo, construído como competência estratégica, expandiu seu repertório de respostas possíveis.
O custo oculto da atenção defensiva
Há um equívoco adicional na crítica de Karnal que merece exame.
Ao igualar pessimismo a realismo, ele ignora o custo fisiológico da atenção defensiva crônica.
O SARA que passa 16 horas por dia (ou mais) escaneando o ambiente em busca de ameaças não opera imune. Ele aciona o eixo HPA — o sistema hipotálamo-hipófise-adrenal, nosso principal circuito de estresse —, libera cortisol e mantém o sistema nervoso simpático em estado de prontidão permanente.
Pessimismo não é apenas uma perspectiva; é um regime inflamatório do sistema.
O corpo do(a) pessimista envelhece mais rápido, regenera-se mais lentamente e responde pior ao estresse. Seu cérebro, treinado para detectar perigo, mantém seu corpo em estado de alerta e pronto para a guerra, mesmo quando não há inimigo à vista.
Pensamento positivo estratégico não é, portanto, apenas uma escolha filosófica. É uma intervenção fisiológica. É o reconhecimento de que a atenção não é um fenômeno puramente mental, mas um evento sistêmico, e que governá-la é também governar o próprio sistema nervoso.
Seu foco controla suas emoções, que controlam sua linguagem e sua comunicação, que controlam suas escolhas e decisões, que controlam seus resultados. Logo, sua atenção controla sua vida.
O que um AVC me ensinou sobre autorresponsabilidade e foco
Na Carta #013, também citei minha experiência quando tive uma hemorragia cerebral no auge da minha produtividade.
Eu estava sentado na cadeira do meu escritório, lendo um artigo, quando meu lado direito paralisou. Foi tudo muito rápido. Em menos de um minuto eu estava entrevado.
Passado o susto e a confusão, meu primeiro pensamento consciente foi: se este AVC veio para mim, é porque há algo que eu tenho que aprender com ele. Se eu não morri agora, é porque ainda não cumpri minha missão; há algo ainda a realizar. Não houve “por que eu?”. Não houve vitimismo. Nunca. Em nenhum momento. Houve apenas a constatação de que o problema era meu e que, portanto, a solução também era minha.
Esta é minha tese em estado bruto, sem abstração, sem retórica. O ser humano controla apenas uma coisa: o próprio foco.
Naquele momento, eu não controlava o hemisfério esquerdo do meu cérebro, onde ocorreu o sangramento, não controlava o prognóstico, não controlava a opinião dos médicos, não controlava o estado emocional da Raquel e de todas as pessoas que me querem bem, não controlava nada além de uma pergunta:
Para onde vou dirigir minha atenção agora?
Escolhi dirigi-la para a recuperação como fato em curso, não como possibilidade distante. Não porque fosse otimista, mas porque a outra alternativa era entregar os pontos e me abater.
No primeiro dia de internação, recebi a visita de uma jovem psicóloga. Dizia ela: “Seu Valter, o senhor não pode se deixar abater”. Apesar da linguagem negativa dela, eu sabia que havia ali uma intenção positiva e respondi: “Fique trankila, eu não sou esta pessoa”.
Nos 24 dias seguintes, repeti essa escolha inúmeras vezes. Cada repetição era uma afirmação ao meu SARA: este é o caminho. Meu cérebro, obediente à direção que eu impunha, reorganizou-se para corresponder à experiência que eu insistia em ter.
Os fisioterapeutas se surpreenderam. O neurocirurgião também. Eu não. Eu apenas estava aplicando, sob ameaça real de perda definitiva da minha independência, o princípio que você está lendo agora e que eu ensino há quase 25 anos.
Por que, Tamer?
Porque atenção é o único recurso que você gasta ininterruptamente, desde a hora que acorda até a hora em que vai dormir, e sobre o qual pode exercer controle.
Dinheiro você perde e recupera. Tempo você perde e não recupera. Atenção você gasta a cada segundo, e o saldo dessa conta é a vida que você efetivamente viveu ou está vivendo.
Pensamento positivo não é a crença de que tudo ficará bem independentemente dos fatos, é a decisão de não entregar seu SARA de graça para o medo e a negatividade.
É a recusa em financiar com sua atenção o mesmo filme de catástrofe que você já viu um milhão de vezes. É o reconhecimento de que, se você vai gastar energia neurológica de qualquer forma, é muito mais inteligente e sensato gastá-la na construção de um mundo interno onde seja possível respirar, agir e, eventualmente, transformar.
A pessoa do estágio #4 não é ingênua em relação às suas próprias dores, às outras pessoas e à dureza do mundo. Ela apenas se recusa a ser definida por elas. Aprendeu que entre o estímulo e a resposta há um espaço, e que nesse espaço reside sua liberdade. Investiu tempo e energia vital pavimentando esse espaço, milímetro por milímetro, com a paciência de quem sabe que na vida não há atalhos.
E aprendeu, sobretudo, que a primeira aprendizagem do desenvolvimento pessoal não é uma técnica. É uma atitude, uma postura de vida: você não é vítima, você é responsável.
Um mapa, não uma teoria
Este modelo dos quatro estágios da direção atencional não está nos livros de Karnal. Não está nos manuais de autoajuda rasos que ele corretamente critica. Não está, até onde conheço, na literatura acadêmica sobre o SARA.
Ele está aqui porque foi extraído de quase duas décadas e meia de experiência pessoal e profissional que exigiu que eu aplicasse sobre mim mesmo, sob ameaça real de perda definitiva de credibilidade e de vida, cada princípio que eu ensinava.
Não é apenas uma teoria. É um mapa feito por alguém que percorreu o território.
O trabalho que realizo na minha mentoria individual é, entre outras coisas, um treinamento sistemático para navegar estes quatro estágios.
Não se trata de aprender a repetir frases bonitas. Trata-se de diagnosticar em que estágio sua atenção opera hoje, identificar os padrões de sequestro atencional que mantêm você refém dos estágios #1 ou #2, e construir, com método e consistência, a competência de direção deliberada que caracteriza o estágio #4.
Comecei esta carta com a imagem de uma caricatura apática, sentada e repetindo afirmações positivas enquanto o mundo desaba.
Termino com outra imagem: um homem, vinte e quatro dias depois de uma hemorragia cerebral, sentado ao volante do próprio carro. O médico disse que ele ficaria sequelado. Ele não discute com o médico; não precisa. Seu SARA está ocupado demais escaneando a estrada à frente.
De novo, isso não é pensamento mágico, é pensamento positivo estratégico operando no estágio #4. É autorresponsabilidade transformada na própria natureza.
É a diferença entre esperar que a vida mude e responder de forma assertiva e inteligente ao que a vida apresenta.
É a tese, vivida.
Finalizo fazendo uma provocação:
Os cocôaches da internet afirmam que o tempo é o nosso maior ativo. Talvez você acredite nisso. Um dia, eu também acreditei.
Hoje, acredito que o maior ativo é a atenção, porque é ela quem determina como gastamos nosso tempo (que é limitado). Um dia começa e uma hora termina.
Grande 4braço
#TamerJunto




Muito bom. Acho (consciente) que os quatros estágios da atenção direcional devem ser registrados. Sugestões no zap daqui a pouco.