Carta #015: você não é vítima; também não é Deus
Entre o medo e a culpa existe um espaço. É nele que sua vida acontece.
Salve! Aqui é o Tamer.
Começo esta carta citando uma afirmação que fiz na carta anterior: você não é vítima, você é responsável.
Enquanto escrevo, fico me perguntando quantas pessoas lerão aquilo e sentirão, no silêncio do seu próprio desconforto, que a frase não encontra ressonância com sua experiência pessoal.
Uma declaração de valores ou princípios é insuficiente para resolver dores legítimas.
E há uma afirmação que pode atingir quem está sofrendo com sua própria realidade e soar como uma acusação leviana ou até projeção quando não explicamos o que ela realmente significa:
Você é responsável.
A conta de padaria
Enquanto eu fazia minha pesquisa para escrever a Carta #014, li uma entrevista do Leandro Karnal à Exame, na qual ele faz uma afirmação que, à primeira vista, parece me contradizer:
Você não é responsável por tudo o que te acontece. Existem a crise, o acaso e os fatores que escapam ao seu controle. Há uma crença excessiva na liberdade do indivíduo - diz Karnal - que pode ser perversa, pois faz o desempregado se sentir um fracassado pela própria demissão.
Ele está certo. Eu também estou.
O problema é que, no calor do debate, formam-se dois campos distintos que entram em rota de colisão.
De um lado, os que afirmam você é 100% responsável, como se isso anulasse o peso objetivo das circunstâncias.
Do outro, os que culpam as outras pessoas, o mundo e os contextos e concluem que qualquer iniciativa de assumir a responsabilidade pelos fatos é inútil.
Em ambos os casos, encontramos o mesmo equívoco estrutural: a responsabilidade é tratada como uma conta de padaria, algo que se mede em porcentagens e se distribui entre você e o mundo, tipo: 30% é com você e 70% é com o mundo, ou o contrário.
Há uma distinção sutil que passa despercebida nessa discussão. Ela está entre o que acontece e o que você faz com o que acontece.
Você não é responsável pela crise econômica que derrubou sua empresa, nem pela escolha do chefe que resolveu cortar toda a sua área, nem por ter nascido num país como o Brasil, com todas as suas desigualdades. E, como afirma a psicanálise, você também não é responsável pelos traumas e estruturas psíquicas que assimilou da sua história.
Mas você é responsável pelo que faz a partir daí.
Isso não é apenas um jogo de palavras. Não é uma questão meramente semântica; é a diferença entre olhar para trás e olhar para a frente. Entre se perguntar:
De quem é a culpa? ou O que eu faço com isso agora?
Eu e Karnal usamos a mesma palavra — responsabilidade — para definir duas coisas diferentes: a responsabilidade como causa e a responsabilidade como consequência (ou resposta).
Quando ele diz que você não é responsável por tudo, está falando da primeira. Quando eu afirmo que você é responsável, estou falando da segunda.
A Programação Neurolinguística Sistêmica tem um princípio que sustenta a minha afirmação:
Em geral, não é a realidade que nos limita, mas a nossa percepção da realidade
A dinâmica do inconsciente
Voltemos à psicanálise.
Aqui, sua contribuição tem função dinâmica, não paralisante; não significa dizer: você é assim porque seu pai fez aquilo, então não há o que você possa fazer a respeito.
A psicanálise ensina que aquilo que não é reconhecido continua operando nas sombras, governando sua vida sem que você perceba.
Se descubro que minha irritação com o chefe é uma versão atualizada da minha relação mal resolvida com a autoridade paterna, posso começar a separar as coisas. Eu passo a ter escolhas.
Na hora em que o chefe é chato ou me aborrece, quem age (ou responde) pode ser o colaborador adulto e consciente, não a criança ferida que ainda reage dentro de mim.
Este é um ponto cego de muito do que se ensina e se entende como autoconhecimento: a ideia de que você pode, por um ato de mera vontade, simplesmente decidir ser e funcionar diferente, ignorando as camadas profundas que constituem sua subjetividade.
A vontade passa pelo reconhecimento do desejo.
O desejo, por definição, é um processo inconsciente.
Explico: apenas quando eu trago o desejo para a consciência é que ele vira vontade. Daí a expressão força de vontade.
Quando dizemos “Fulano(a) tem força de vontade” queremos dizer que a pessoa tem clareza do que quer e, portanto, consegue canalizar energia, tempo e todos os recursos necessários para atingir sua meta.
Então, não se trata de negar o poder da vontade, mas de reconhecer que ela opera sobre um terreno que não foi escolhido por você.
Você não escolheu suas feridas ou seus traumas, nem os padrões emocionais que herdou. Mas pode escolher como responderá a eles, a partir do momento em que os reconhece e os acolhe.
Frequentemente, quando alguma coisa dá errado, instala-se uma dinâmica curiosa, com poucas exceções: pode-se ir para um lado ou para outro, mas ambos os caminhos levam ao mesmo lugar.
De um lado, a paralisia da culpa: a pessoa se autodeclara fracassada, alguém que não merece resultado melhor do que o fracasso. E com isso se autoriza a não agir. Não adianta, eu não sirvo para nada; eu sou um lixo mesmo.
De outro, a paralisia da acusação: a pessoa culpa as forças exteriores por tudo o que lhe acontece — o pai, a mãe, o marido, a mulher, os filhos, o chefe, o mercado, o governo.
E quando não tem ninguém na face da Terra para acusar, ela responsabiliza Deus ou o diabo: ou Deus a está provando, ou o diabo a está tentando. E com isso também se autoriza a não agir. Não adianta, o mundo não tem jeito.
São duas formas diferentes de escapar da mesma pergunta desconfortável:
O que eu faço com isso agora?
A culpa olha para trás e diz: fui eu.
A acusação olha para os lados e diz: foram os outros; foi o mundo; foi Deus; foi o diabo.
Ambas evitam olhar para a frente.
Culpa diz respeito ao passado. Responsabilidade diz respeito ao futuro.
A culpa pergunta: quem fez isso? Ela quer encontrar um culpado — em você, nas outras pessoas, no mundo ou no transcendental — para que a história se encerre com uma justificativa plausível.
A responsabilidade quer encontrar uma saída, mesmo que imperfeita, para que o problema se resolva, a vida continue e você avance.
Você pode passar a vida inteira processando a culpa. Pode analisar cada detalhe do que aconteceu, cada erro que cometeu e cada injustiça que sofreu. Pode construir uma narrativa impecável sobre como chegou até aqui. E no final, se tudo der certo, continuará no mesmo lugar.
Responsabilidade não exige que você esqueça o passado, ela espera que você não fique preso(a) nele.
No seu livro Em busca de sentido, Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração, nos ensina:
Quando não podemos mais mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos
Frankl perdeu tudo: a família, a dignidade e a liberdade física. Foi reduzido a um número num campo de extermínio nazista. Se alguém tinha motivos para se sentir uma vítima, sem dúvida, era ele.
E foi exatamente no lugar onde tudo lhe foi tirado que ele descobriu a única coisa que podia manter: a capacidade de escolher sua própria atitude diante dos acontecimentos.
Este é o território da autorresponsabilidade.
Uma pessoa autorresponsável não sofre da ilusão de querer ter controle absoluto sobre a vida, mas habita o espaço entre o que a vida faz com ela e o que ela faz com o que a vida fez.
Quanto maior esse espaço, mais livre você é; quanto menor, mais refém.
Há uma estrutura profunda que só as pessoas em estágio avançado de desenvolvimento pessoal são capazes de reconhecer: o fracasso pode virar identidade e, quando isso acontece, a pessoa fica enraizada numa zona de conforto. Mesmo quando ela é dolorosa; mesmo que não tenha nada de confortável.
Se me declaro um(a) fracassado(a), eu sei quem sou. Sei o que esperar de mim mesmo(a). Sei que não adianta agir, me mexer, entrar em movimento, pois as cartas estão lançadas e o jogo da vida já foi decidido.
O fracasso me dá um lugar no mundo. Um lugar ruim, é verdade, mas ainda assim é o meu lugar, é nele que me reconheço.
Pode ser mais assustador e doloroso largar essa identidade do que permanecer nela. Porque abrir mão dela significa entrar em território desconhecido.
E é melhor estar num território inóspito, mas que conheço e domino, do que pisar em terreno novo, em solo duvidoso, porque isso significaria ter que recomeçar, arriscar de novo e, quem sabe, fracassar de novo.
Mas agora sem a desculpa comum dos que sofrem da Síndrome de Gabriela:
Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim
O medo, aliás, é irmão siamês da culpa. Ambos paralisam. Ambos olham para trás ou para os lados, nunca para a frente.
A religião, em sua versão mais limitante e doentia, sabe disso há séculos e utiliza a mesma dinâmica como estratégia de manipulação: mantenha a pessoa com medo do inferno e culpada pelos seus pecados, e ela jamais questionará o chão onde pisa.
O mesmo mecanismo opera na vida profissional, nos relacionamentos e na relação que cada um(a) estabelece consigo(a): medo de não ser capaz; medo do julgamento alheio; medo de repetir o fracasso dos pais; medo de descobrir que, no fundo, a culpa estava certa a seu respeito.
O problema é que medo e culpa são excelentes para manter tudo como está. São os guardiões da apatia e da zona de conforto. Eles sussurram: não arrisque, não se mexa; mantenha-se onde está.
Enquanto você dá ouvidos a comandos como esses, sua reforma íntima não tem início.
A casa que você habita
Eu uso uma metáfora com meus mentorados que talvez ajude você a compreender melhor a minha lógica:
Imagine que sua vida é uma casa.
Você não escolheu o terreno, ele veio junto com a história, a geografia, o clima, a vizinhança e as marcas que os outros deixaram. Você também não escolheu a planta original, ela veio da sua criação, da sua educação, da sua religião.
E você não escolheu os materiais da construção: tudo o que aprendeu e o que lhe foi dado.
Mas a casa é sua. A responsabilidade pela manutenção e pela reforma também.
Você pode passar a vida reclamando do terreno, da planta, da casa e dos materiais com os quais ela foi construída. Pode gastar toda a sua energia vital afirmando, até morrer, que não foi você quem escolheu nada disso. Mas continuará morando na mesma casa, do mesmo jeito, para sempre.
Ou pode começar a reformar a casa, sem ter que destruí-la completamente.
Você pode remover o entulho acumulado com o tempo e que ocupa um espaço importante: crenças e valores que não servem mais (leia a Carta #013 para mergulhar e aprender sobre classes, tipos e níveis de crença), mágoas que já cumpriram seu ciclo e padrões que insistem em se repetir.
Toda reforma começa com a limpeza do terreno.
Depois, você pode tapar as goteiras e até trocar o encanamento, pode pintar as paredes com uma cor diferente, pode abrir novas janelas e pode mudar as portas de lugar.
Aos poucos, por meio de um processo sério, profundo e continuado de desenvolvimento pessoal, você pode transformar a casa que herdou na casa em que realmente quer habitar.
Com paciência e habilidade, você pode até transformá-la na casa dos seus sonhos.
Ser dono da própria vida não é escolher o terreno. Nunca foi. Nunca será. É assumir a reforma.
Você é uma pessoa inteligente e sabe que ninguém reforma uma casa sem contratar um arquiteto. Ele tem um olhar técnico determinante para o sucesso da obra, que o morador comum não possui.
Na minha mentoria individual, eu sou o arquiteto e você é o(a) morador(a).
Juntos, examinaremos a planta que você recebeu, e eu o(a) ajudarei a decidir o que manter, o que derrubar e o que construir no lugar.
Meu trabalho é identificar as programações mentais e emocionais que trouxeram você até aqui e reprogramar o seu futuro.
Clique aqui e preencha o formulário de interesse. Analisarei sua aplicação e, se houver alinhamento, conversaremos sobre os próximos passos.
Entre o que acontece e a sua resposta
Na carta passada, fiz uma pergunta que retomo agora, porque ela é o fio que conecta tudo:
Entre o que a vida te apresenta e a resposta que você dá, o que existe?
Para alguns, existe apenas reatividade. O estímulo entra e sai a resposta (uma reação), automática e inconsciente, sem intervalo e sem escolha.
Para outros, existe um espaço. Pequeno no início, quase imperceptível, mas que vai crescendo à medida que é exercitado e posto em prática.
Nesse espaço, cabe uma pergunta; depois, uma pausa; e, na sequência, uma escolha consciente e deliberada (ação).
O trabalho sobre si mesmo visa a alargar esse espaço, para que você tenha novas e melhores escolhas para agir. Para que, diante do que a vida apresenta, você seja uma voz própria e não apenas um eco das circunstâncias.
Obviamente, isso não se aprende em livros nem nos vídeos dos cocôaches da internet. Aprende-se na prática consistente, dia após dia, de fazer a pergunta certa, que dirige sua atenção para o lugar certo, no momento decisivo.
E a pergunta não é por que isso aconteceu comigo?, tampouco de quem é a culpa?
A pergunta certa é:
O que eu faço com isso agora?
Por que, Tamer?
Porque autorresponsabilidade é a disposição de fazer a pergunta certa e bancar a resposta que vier, por mais desconfortável que seja.
Como já disse, isso não significa assumir a responsabilidade pelo que não se pode controlar, mas sim assumir o comando da única coisa que realmente lhe pertence: a direção do próprio foco.
Você não escolhe a queda, mas pode escolher se levantar ou continuar caído(a); você não escolhe a tempestade, mas pode escolher como navegar enquanto ela dura.
Você não é vítima; também não é Deus
Você, como eu, é alguém que, reconhecendo o que não controla, assume corajosamente o que pode controlar.
É alguém que, em vez de gastar a vida processando e remoendo o passado, investe a vida construindo o futuro.
A partir de onde está, dentro do possível e com o que tem.
Já diz a PNL Sistêmica:
As pessoas fazem o melhor que podem com os recursos que têm
Entre o que a vida apresenta e a resposta que você dá, existe um espaço.
Alguns passam a vida sem saber que ele existe. Agora, você sabe. Só falta meter a mão no entulho e começar a reforma.
Grande 4braço
#TamerJunto




Estive afastado da leitura das cartas. Talvez tenha parado a minha leitura na carta 7 ou 8, nem lembro ao certo. O fato é que retomei a leitura em uma carta que toca exatamente no ponto que importa.
Obviamente consumirei as cartas faltantes e, agora, consciente das minhas escolhas e do que me faz bem, estarei assíduo nas futuras cartas.
Obrigado!
Esta diferença entre a responsabilidade como causa e a responsabilidade como consequência (resposta) é muito esclarecedora. A pergunta "o que faço com isso agora?" ativa o SARA?