Carta #017: você está entre os que querem ser ou os que buscam ser?
A vida se divide em dois tipos de pessoas. De que lado você está?
Salve! Aqui é o Tamer.
Sonhar não custa nada.
Este é o refrão do famoso samba-enredo de 1992 da escola de samba carioca Mocidade Independente de Padre Miguel. Ela não foi a campeã do carnaval naquele ano, mas o samba entrou para a história.
Se você é fã da Mocidade, como é a Duda, minha filha, certamente já cantou também.
Pois é, a frase é ótima para samba, para entretenimento, para papo de botequim. Na vida real, sonhar custa. E custa caro. Às vezes, muito caro. Em alguns casos, um preço tão alto que não se consegue ou não se está disposto(a) a pagar.
Ao longo desses quase 25 anos desenvolvendo pessoas, conheci gente com sonhos engavetados por uma vida inteira.
Essas pessoas não são exceção; são quase todo mundo.
Este é o maior inimigo do desenvolvimento pessoal: a crença de que sonhos se realizam sozinhos, que basta acreditar, que basta querer.
Na Carta #016, eu trouxe uma distinção importante sobre a autoajuda verdadeira, enquanto caminho, e a autoajuda barata, enquanto promessa. A diferença fundamental entre elas é: autoajuda enquanto caminho cobra um preço.
Para você, leitor(a), talvez tenha ficado uma pergunta no ar:
Afinal, o que significa, na prática, concretamente, pagar o preço?
A Carta #017 vem responder a esta pergunta.
A vida se divide em dois tipos de pessoas: as que querem ser e as que buscam ser.
De fato, querer não custa nada.
Você pode querer o corpo perfeito, sem frequentar academia; pode querer o relacionamento certo, sem saber o jeito certo de se relacionar; pode querer dinheiro sem ter que trabalhar; pode querer o livro definitivo, sem se sentar para escrever; pode querer água, sem ter que cavar.
Querer é sonhar de olho aberto. É a Mocidade cantando enquanto atravessa a avenida… É bonito de ver. Mas você continua no mesmo lugar.
Buscar é outro departamento. É você, de fato, fazendo acontecer. É você com a mão na massa.
Buscar não tem glamour. Tem cara de segunda-feira, gosto de comida fria e cheiro de suor. É o que você faz quando tem uma plateia te aplaudindo, mas, principalmente, quando ninguém está te olhando, quando o único motivo para continuar é você mesmo(a) e a sua vida.
Ninguém aplaude ensaio
Quando atingimos certo grau de maturidade na vida, precisamos identificar em nós mesmos a sutil diferença entre querer o resultado e querer o processo.
É muito importante fazer essa distinção, porque a distância entre querer e buscar não é medida em esforço, mas sim pela disposição de manter o desconforto quando o resultado ainda não apareceu. E a distância entre desconforto e resultado pode ser longa. Pode durar anos.
Esses conceitos costumam se confundir, mas, na prática, são coisas radicalmente diferentes. E essa diferença raramente aparece no início, quando tudo são flores, quando a motivação é alta, o entusiasmo é verdadeiro e a intenção é genuína.
O problema aparece quando o processo começa a cobrar o seu preço e a dor do caminho vence o prazer da clareza do destino.
É aí que a coisa pega e a maioria estaciona. E para sem perceber que parou. Continua dizendo que quer, continua planejando, continua se imaginando do outro lado, mas parou de cavar.
Sonhar com o palco é fácil e agradável. Você fecha os olhos, se imagina lá, sente o calor dos holofotes, ouve os aplausos e nada disso custa. O problema é que ensaiar dói, que o sucesso pode ser lento e ingrato, que normalmente há anos de trabalho invisível entre a vontade e o palco, e que ninguém aplaude os ensaios.
E quem para de cavar geralmente não o faz porque desistiu do sonho, mas porque não estava, de fato, disposto(a) a pagar o preço do processo. Estava apaixonado pelo pódio, pela chegada, não pela caminhada.
E a caminhada é a vida acontecendo. A chegada dura um instante.
Isso é perfeitamente compreensível. Não é fraqueza, nem falta de caráter, é a forma como o aparelho psíquico humano responde. É uma questão de funcionamento que Freud descreveu quando apresentou ao mundo sua teoria do Princípio do Prazer (Lustprinzip):
O aparelho psíquico é movido pela busca do prazer e pela fuga da dor (o desprazer).
A PNL Sistêmica traduz esse princípio quando fala dos metaprogramas - programas que sustentam programas -, entre eles a dupla que governa boa parte das nossas escolhas:
Buscar o positivo ou fugir do negativo
A conta que nunca fecha
Aqui está a parte que os cocôaches da internet nunca dizem e que nenhum cursinho de desenvolvimento pessoal anuncia, porque seria suicídio comercial:
O preço não é pago uma única vez; ele é cobrado todo santo dia, a vida inteira.
Na vida, ninguém está quite. Não existe um momento em que você paga e diz: quitei. Existe uma escolha que se renova toda manhã, sempre que o processo te desafia e que o resultado demora mais do que você esperava.
E, pode acreditar, o processo vai te desafiar. Sempre.
E o caminho te desafia não porque a ferramenta é ruim, a metodologia é falha ou você escolheu errado. O desafio decorre do fato de que toda mudança é desconfortável. Sempre foi. Aqui e em qualquer lugar. O desconforto não é um sinal de que alguma coisa deu errado; é sinal de que você está no caminho certo e que uma mudança estrutural e verdadeira está acontecendo.
E o desconforto não é à toa. Crescer exige que você revisite e ressignifique histórias que você vive contando sobre quem é, o que merece e o que é capaz, e deixe para trás versões de si mesmo(a) que já não servem. Feito cobra que vai trocando a pele.
Mas tem uma coisa que preciso te dizer: apesar do desconforto, não existe sensação melhor, mais prazerosa, mais reconfortante, mais compensadora do que olhar para trás e ver o quanto você avançou, o quanto já evoluiu.
Quem sente isso continua.
Quem não sente interpreta os desafios como evidência de que o caminho está errado, de que não é para ele(a), de que precisa de um método diferente, de um treinamento melhor, ou de um guru mais eficiente.
E recomeça em outro lugar. E para de novo. E recomeça de novo. E acumula começos sem nunca aprofundar nenhum deles. E, como diz o ditado (e todo ditado tem um fundo de verdade): pedra que rola não cria limo.
Por que, Tamer?
Porque recomeçar é confortável. Tem o entusiasmo do início, a leveza de quem ainda não encontrou a pedra e o frescor da esperança de que agora vai.
Continuar é que exige o que a maioria não tem ou ainda não desenvolveu: a disposição de trabalhar no escuro, sob sol e chuva, sem saber exatamente quando a água vai minar.
A escolha entre a pedra e o espinho
Cavar é fácil enquanto a terra é fofa. O desafio aparece quando a pá encontra pedra.
E vai encontrar. Sempre encontra.
A pedra pode ser um padrão emocional antigo que resiste, uma crença que você não sabia que tinha até ela começar a emperrar o processo e você ter que voltar algumas casas.
Pode ser uma relação que o processo coloca em questão ou a descoberta de que aquilo que você chamava de sonho era, na verdade, a fuga de uma realidade que você não queria encarar.
E a pedra é diferente para cada pessoa. O fato inevitável é que cada um de nós tem a sua própria pedra.
Isso sempre me lembra o apóstolo Paulo, em 2 Coríntios 12:7:
E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar.
Apesar de pedras (desafios) diferentes, a resposta diante deles tende a ser parecida: parar, recuar, procurar um caminho mais fácil, ou concluir que o problema está na metodologia, no facilitador e não na própria disposição de continuar cavando.
Poucas pessoas conseguem ficar na pedra. Isso significa continuar trabalhando num ponto que não cede facilmente e onde ninguém entende por que você continua.
Significa também aceitar que o processo tem o tempo dele, não o tempo que você estipulou.
E implica em desenvolver flexibilidade mental e emocional para persistir. A PNL Sistêmica tem um pressuposto que ilumina essa capacidade:
Dentro de um sistema, a parte mais flexível tende a sobreviver e dominar
Flexibilidade aqui não significa trocar de terreno toda vez que a pá encontrar resistência, e sim ajustar o ângulo, cavar em volta, recuar um passo para reavaliar, se for o caso, e voltar com uma estratégia melhor.
O teimoso insiste no mesmo ponto, no método método errado, até quebrar a ferramenta.
O flexível se segura no propósito e varia o seu comportamento.
Quem fica na pedra aprende coisas sobre si mesmo(a) que não estavam no mapa. A pedra é, muitas vezes, o lugar onde o trabalho de verdade começa, porque a superfície já ficou para trás faz tempo e o que aparece é o que estava lá embaixo o tempo todo e ninguém via. Nem você.
Você tem um porquê?
Na Carta #15, expliquei as diferenças entre desejo, como processo inconsciente, e vontade como reconhecimento do desejo.
A diferença entre quem chega e quem fica vai além da força de vontade, aquela coisa que você contrai como músculo e mantém às custas de muito foco e esforço puro.
Força de vontade sozinha quebra.
O que torna um processo longo sustentável não é apenas a intensidade do querer, é a clareza do porquê, a compreensão de que o valor agregado é muito maior do que o preço a ser pago e, sobretudo, saber que o desconforto do caminho é menor do que o custo de continuar parado(a) onde você está.
Quando essa clareza existe de verdade, o processo muda de natureza. Ele continua exigindo de você, continua doendo em alguns pontos, continua sendo lento em outros, mas você para de lutar contra ele; você para de julgá-lo e começa a aceitá-lo como ele é, e não como você gostaria que ele fosse.
Com o tempo, uma coisa curiosa acontece: você passa a gostar do processo. Sua vida passa a ser o grande palco do qual você extrai os aprendizados e insights para continuar vivendo cada vez melhor.
Falo por experiência própria: o desenvolvimento pessoal pode ser muito mais prazeroso do que doloroso, apesar do desconforto. Quando o processo vira modo de vida, a ideia de interrompê-lo começa a parecer estranha, até perder o sentido.
Isso não é uma promessa, é uma constatação.
Quando descobri minha missão, em junho de 2000, entre tantas outras certezas que me mantinham numa zona de conforto, eu tinha a estabilidade de uma trajetória profissional bem-sucedida na indústria de shopping centers de uma das maiores e mais respeitadas empresas do setor.
Meu preço foi alto. Não apenas financeiro; isso foi só o começo. Mas eu tinha a clareza do propósito, a força de vontade e a resistência necessários para sustentar qualquer processo.
Aí, eu entendi com todas as minhas entranhas, a máxima do filósofo Friedrich Nietzsche:
Quem tem um porquê enfrenta qualquer como
Naquela ocasião, praticamente todos os meus colegas de turma queriam se tornar treinadores comportamentais, como eu. Eram muitos. Com o tempo, um por um foi parando. Alguns por falta de recursos financeiros, outros por desânimo, outros por falta de paciência, outros, ainda, porque a vida foi apresentando alternativas mais imediatas e confortáveis.
Só eu fiquei.
Mas eu não sou o único exemplo. Depois de ler esta carta, sugiro que você assista a este vídeo, em que Marcelo Sales conta sua trajetória no evento Day1, promovido pela Endeavor Brasil.
Sales é um dos maiores empreendedores deste país e a história dele é uma grande inspiração. Eu o conheci em janeiro de 2006, quando ele veio fazer comigo uma formação de PNL Sistêmica e, na sequência, o Metamorphosis, meu treinamento de inteligência emocional e autogestão.
Dois meses depois, conheci a hacker, sua sócia, a quem ele se refere no vídeo. Ficamos amigos. Essa é uma outra história incrível que vale a pena ser contada. Só que vai ficar para outro dia.
A pergunta que ninguém se faz
Quando se fala de mudança, fala-se necessariamente de clareza. Clareza sobre três aspectos distintos, sem os quais nada acontece:
Onde estou? (o que eu não quero)
Para onde vou? (o que eu quero)
Como chegar de um ponto a outro?
Essas perguntas são bem desafiantes de serem respondidas. Muito dificilmente, a pessoa conseguirá respondê-las sozinha, sem ajuda profissional.
Na minha experiência profissional, todas as pessoas que vieram a mim ao longo de todos esses anos, seja para terapia ou mentoria, chegaram com uma queixa e descobriram que, na verdade, a questão era outra. Às vezes, completamente diferente da queixa original. Absolutamente todas.
Mas existe uma pergunta igualmente importante que precisa ser respondida com sinceridade:
Qual é o desconforto que você está disposto(a) a suportar para chegar aonde quer?
Obviamente, não a dor que você aguenta uma vez, no pico da euforia, quando tudo ainda é novidade. Mas a que você suporta numa segunda-feira qualquer, quando o entusiasmo passou, quando os resultados ainda não apareceram e a única razão para continuar é a compreensão de que parar custaria continuar com as suas angústias, com as mesmas limitações e inadequações, e sem sequer saber lidar com elas.
Essa pergunta muda tudo, porque transforma seu sonho em projeto e sua vontade em comprometimento.
Desenvolvimento pessoal de verdade começa quando você aceita que mudar implica num processo sério, profundo e continuado, e que isso tem um preço.
Para entender como classifico um processo completo de desenvolvimento pessoal, leia a Carta #010: só autoconhecimento é pouco.
Há quase 25 anos, caminho ao lado de quem decidiu parar de imaginar e começar a cavar.
Não vendo ingresso para o espetáculo. E não pago seu ingresso, porque estou pagando o meu. Mostro onde fica a catraca, te digo o momento certo de entrar e caminho com você até as poltronas que ficam do lado de dentro. Me sento ao seu lado e assisto com você.
Mas quem paga sua entrada é você, e quem sustenta o peso do espetáculo, cena após cena, também.
Para trabalhar comigo, clique aqui e preencha o formulário de interesse.
Analisarei sua aplicação e, se houver alinhamento, conversaremos sobre os próximos passos.
A entrada
A vida é um espetáculo. E ela cobra entrada. E não tem meia-entrada, aqui ninguém é estudante, é aprendiz. E a entrada é você inteiro(a), em cada etapa do espetáculo, em cada cena que exige de você o que você ainda não tinha dado antes.
Quem paga o preço, entra e assiste. Quem não paga, fica do lado de fora. Simples assim.
E só depois da catraca é que a gente se dá conta de que o espetáculo acontece dentro, não fora.
Quem entende isso para de esperar que o processo fique mais leve e começa a desenvolver a capacidade de carregar o peso enquanto caminha, e vai descobrindo, ao longo do caminho, que o peso vai mudando de natureza, que o que parecia insuportável no início vai ficando familiar e que a pá que bateu na pedra vai encontrando os pontos onde pode continuar cavando.
Não existe versão desse processo que seja confortável do início ao fim. Existe, sim, uma profundidade a partir da qual o desconforto deixa de ser motivo para parar e passa a ser evidência de que você está no lugar certo, cavando do jeito certo, perto de onde a água está.
A Mocidade cantou em 1992: sonhar não custa nada. A escola passou e o samba acabou.
Trinta e quatro anos depois, as pessoas repetem o mesmo refrão e seguem no mesmo lugar.
Como eu disse no início desta carta, sonhar custa o tempo que você passa imaginando em vez de agir e fazer acontecer; custa a energia que você gasta fantasiando em vez de executar; custa a vida que você vive sonhando acordado(a) enquanto ela passa.
Muita gente paga esse preço. A maioria esmagadora.
Você pode pagar também: querendo e sonhando. Pode até engrossar o coro da Mocidade e acreditar que a vida se resume a um samba bem sambado. A vida é generosa; ela deixa: deixa você sonhar à vontade, deixa você experimentar, sem cobrar na hora.
A cobrança vem depois, quando você olha para trás, vê que o tempo do desfile acabou e que você, distraído(a) no esquenta da concentração, não saiu do lugar.
O tema explorado nesta carta deu origem a uma reflexão complementar, ancorada num trecho bíblico, realizada no encontro semanal de meditação cristã que conduzo.
Nos nossos encontros de meditação, usamos a sabedoria dos textos bíblicos aplicada ao crescimento e à evolução pessoal, de forma não dogmática e sem qualquer cunho ou compromisso religioso.
Na descrição do vídeo, no YouTube, você encontra o link para participar gratuitamente do nosso grupo de meditação cristã.
Grande 4braço
#TamerJunto




Quem tem um porquê, sustenta qualquer como
Que preciosidade de texto! 🙏🏽❤️✨️