Carta #018: quando as pessoas desaprenderam a se relacionar
Todo mundo sabe chegar; pouca gente sabe ficar
Salve! Aqui é o Tamer.
Dia desses, explorando o app do Substack, encontrei uma nota da Erika Sayuri com uma pergunta que ficou reverberando em mim:
É impressão minha ou está cada vez mais difícil de fazer amizade?
Parece que as pessoas não sabem mais ter conversas profundas, tampouco demonstram interesse em conhecer alguém.
O desconforto da Erika manifestado nessa nota não é novidade para mim. Mas a pergunta me impactou porque ela mexe com uma constatação que venho fazendo há muitos anos, desde que comecei o trabalho que realizo com gente de carne e osso, com carências e desejos, idealizações e esgotamento.
Por isso, decidi escrever a respeito.
O fato e o que ele revela
Ao longo de quase 25 anos desenvolvendo pessoas, sobretudo quando trato de relacionamento nos meus treinamentos, ouço de alunos(as) solteiros(as), viúvos(as) e divorciados(as) a mesma queixa recorrente: está cada vez mais difícil encontrar gente com quem seja possível conversar de verdade e, sobretudo, permanecer de verdade, construindo alguma intimidade sem que tudo desague rapidamente na superfície e corra rio abaixo.
Quando uma evidência se repete por tanto tempo, em contextos diferentes, com pessoas de idades, gêneros, classes sociais e repertórios diferentes, ela deixa de ser mera impressão ou especulação e pode ser considerada um fato.
O que está acontecendo para que a experiência de conhecer alguém, fazer amizade, namorar e construir um vínculo tenha se tornado tão desafiadora e desgastante para tanta gente ao mesmo tempo? E isso já vem acontecendo há décadas.
Relacionamento é uma competência do autodesenvolvimento. Ninguém nasce sabendo se relacionar. Isso a gente aprende, como qualquer outra competência interpessoal.
Relacionamento pede autoconhecimento, porque nossas relações interpessoais são reflexos da nossa relação intrapessoal. Quem não se entende, não sabe o que sente enquanto sente. Quem não se percebe, não sabe o que projeta no outro. Quem não distingue desejo de carência entra na relação com uma confusão que cedo ou tarde se manifesta e começa a cobrar o seu preço.
Mas autoconhecimento ainda é pouco. Você pode compreender muita coisa sobre si mesmo(a) e ainda assim continuar produzindo na prática os mesmos padrões, porque a vida não responde ao insight com a mesma facilidade e rapidez com que responde ao comportamento repetido ao longo de uma vida inteira. No campo relacional, isso aparece com nitidez.
A maneira como alguém se comunica, escuta, interrompe, interpreta, julga, se abre, se fecha, se ressente, se protege e se apressa em terminar o que nem começou revela o tanto de trabalho interno que já foi feito e o tanto que ainda está pendente, ainda por vir.
Para entender como classifico um processo completo de desenvolvimento pessoal, leia a Carta #010: só autoconhecimento é pouco.
Quando o mundo entrou no quarto
É aqui que a queixa da Erika ganha outra dimensão. Ela parece falar apenas de amizade e de conversa profunda, mas naquelas três linhas está embutida uma questão maior e mais ampla, ligada ao tipo de ser humano que vem sendo formado nas últimas décadas.
Desde o começo da minha trajetória profissional, tenho observado e dito aos meus alunos que a incapacidade crescente de se relacionar começou a ser formada quando as crianças passaram a ter o mundo dentro do próprio quarto: computador, televisão, videocassete, videogame etc. Desde então, as brincadeiras de criança e o entretenimento deixaram de ser atividades coletivas e passaram a ser individuais.
Antes disso, a convivência infantil se dava em espaços compartilhados, em brincadeiras que dependiam de corpo presente, de vínculos, de regras, de negociação, de frustração, de improviso, de disputas, de resolução de conflitos e de reconciliação.
Brincadeira coletiva sempre foi escola de relacionamento, ainda que não tivesse esse nome, ainda que ninguém chamasse assim ou não houvesse essa clareza.
Era ali que se aprendia a ganhar e a perder, a esperar sua vez, a compartilhar o espaço (e a bola), a reparar uma fala, a resolver um mal-entendido, a voltar no dia seguinte depois de uma briga, a perceber e respeitar o limite do outro, a fazer valer seu próprio limite e a descobrir, aos poucos, que convivência não nasce pronta; ela se constrói, a partir desses e outros fatores.
Quando o mundo entrou no quarto, uma parte importante desse treinamento começou a rarear, até desaparecer. Quando o mundo coube na palma da mão, a coisa desandou. O encontro foi substituído pelo acesso, e a presença, pelo estímulo constante.
Isso não alterou apenas os hábitos, mas também contribuiu para a fragmentação da atenção e para a formação de uma visão de mundo limitada, além de minar a paciência, a tolerância e tantas outras qualidades necessárias para fazer um relacionamento se tornar minimamente viável.
Na Carta #014: a grande mentira que te contaram sobre o pensamento positivo, mostro por que a atenção ocupa um lugar central na forma como a realidade é percebida e vivida. Quando ela se fragmenta, a experiência relacional também se empobrece.
Uma pessoa que cresce treinada a não ficar muito tempo em nada encontrará dificuldade quando a relação pedir presença. Uma pessoa que se acostuma a circular por muitos estímulos e a trocar de foco com rapidez levará essa forma de funcionar para as conversas, para as relações profissionais, para as amizades, para o namoro, para o casamento… e para os filhos que virão.
Uma pessoa que foi treinada a viver sozinha, a não dividir seu espaço, não saberá lidar com as frustrações e demandas normais de um relacionamento. Ela não terá a paciência necessária para investir seu tempo e sua energia para fazer a relação dar certo.
Na PNL Sistêmica, partimos de um princípio simples:
Os sistemas se organizam na harmonia ou no caos
Relações humanas são sistemas. Amizades, namoros, casamentos, famílias, comunidades, vizinhanças, grupos, equipes de trabalho etc.
Quando a formação relacional empobrece, os sistemas se desorganizam para se reorganizar depois na incapacidade de estar presente, de continuar e construir vínculos.
O contato não produz o encontro
A comunicação é a ferramenta das relações humanas.
Qual é, então, a maior falha na comunicação?
Ausência. Ausência de atenção, de interesse real, de escuta ativa e de disponibilidade para o outro.
É dessa ausência que estamos falando quando dizemos que as pessoas estão rasas. Isso aponta para um fenômeno cada vez mais generalizado e observável.
Como mostrei na Carta #002, tudo é comunicação. E é justamente por isso que a ausência pesa tanto: ela também comunica.
O que exatamente empobreceu?
Isso aparece muito rápido, às vezes nos primeiros minutos de conversa. A pessoa não pergunta com interesse verdadeiro, apenas espera sua vez de falar. Não acompanha a linha do assunto por muito tempo, interrompe o outro e muda de tema na primeira curva, volta para si o tempo inteiro, não explora as nuances do raciocínio, não acolhe as diferenças sem se armar e se defender, e mal consegue atravessar um silêncio sem sentir que precisa preenchê-lo imediatamente com qualquer coisa.
Quando estudamos o problema a fundo, chegamos à conclusão de que não é maldade nem falta de vontade, é pobreza relacional. É incapacidade de descer um pouco mais fundo porque quase tudo foi treinado para o raso, para o rápido, para o efeito imediato, para a troca ligeira que não exige atenção, presença e elaboração.
Quando falo em superficialidade, não me refiro apenas à falta de cultura, de leitura ou de assunto. Estou falando de gente com pouco repertório, que se expressa com dificuldade, com pouca linguagem para dar nome ao que sente, pouca tolerância para o silêncio e pouca disponibilidade para ouvir sem transformar tudo em defesa, brincadeira, julgamento, sedução ou fuga.
Por isso, a falta de repertório se manifesta não apenas na conversa sem assunto, mas também na incapacidade de formular uma pergunta inteligente, de aprofundar um tema, de bancar uma discordância sem transformar essa diferença em desentendimento ou conflito, de suportar o desconforto inevitável que qualquer encontro verdadeiro pode trazer consigo.
Conversa profunda pede repertório. E repertório aqui não se limita a livro lido, filme visto, viagem feita ou assunto acumulado. Repertório inclui atenção, entrega, escuta, capacidade de compreender suas emoções e as do outro e disposição para se frustrar. Sem isso, a conversa até começa, ganha algum movimento, flerta com a profundidade em alguns instantes, mas perde lastro quando a presença precisa durar mais do que alguns minutos.
É por isso que hoje até se consegue iniciar um contato, mas se encontra imensa dificuldade para criar vínculo.
Um primeiro contato pede desenvoltura, aparência, timing, algum repertório social, às vezes um corpo bem cuidado, bom humor, uma frase de efeito aqui e acolá, e até uma energia boa.
Mas estabelecer vínculo requer outros recursos: profundidade, consistência e interesse genuíno pelo outro. Requer capacidade de lidar com as diferenças sem interpretá-las como ameaça. Requer alguém que não se desorganize quando a relação sai do campo do entretenimento e do prazer imediato para entrar no campo da convivência e da troca.
As novas gerações foram treinadas para o contato rápido e superficial e pouco formadas para o encontro. Isso explica muito sobre o tempo em que vivemos e a sociedade que estamos construindo.
Não à toa as pessoas continuam sendo admitidas pelo currículo e demitidas pelo comportamento. Não à toa as habilidades interpessoais, hoje chamadas de soft skills, continuam sendo cada vez mais valorizadas pelas empresas.
Explica o cansaço de quem busca uma conversa e encontra respostas automáticas, repertório emprestado, presença intermitente, interesse que dura pouco, fascínio que não amadurece, vínculo que se alimenta da novidade e vai murchando quando a realidade e as necessidades da outra pessoa começam a se mostrar e a exigir atenção. Explica também por que tantas relações hoje ficam congestionadas de expectativa desde o começo.
Quando a pessoa tem pouca relação consigo mesma, tende a convocar o outro para funções que pertencem ao seu próprio trabalho interno. Busca no outro validação, distração, resgate, preenchimento do vazio, confirmação de valor e compensação das suas carências.
O relacionamento ainda está começando, o vínculo ainda não se estabeleceu por completo e já carrega um peso desproporcional, porque foi chamado a resolver aquilo que a própria pessoa ainda não soube trabalhar dentro de si mesma.
Os relacionamentos viraram um mecanismo de projeção.
Preparo não garante o encontro
Vejo isso com frequência no meu trabalho. Uma mentorada começou comigo porque queria viver um relacionamento sério, saudável e estável e estava convencida de que ninguém tinha interesse nela.
Como não poderia deixar de ser, fui claro desde o início:
“Não posso prometer que você encontrará alguém, porque isso não depende de mim. O que posso fazer é identificar o que vem te impedindo de se relacionar e te preparar para fazer esse relacionamento acontecer, quando a pessoa aparecer. Você sairá da mentoria sabendo o jeito certo de se relacionar.”
Foi esse o trabalho.
De lá para cá, ela já viveu dois relacionamentos, despertou o interesse de muitas pessoas e se tornou alguém muito mais resolvida. Continua num processo sério e profundo de desenvolvimento pessoal comigo, porque esse tipo de trabalho não se encerra num passe de mágica. Só que hoje ela lida com outro tipo de problema: o despreparo e a superficialidade das pessoas que se aproximam dela.
Esse é um dos trabalhos que faço na mentoria individual. Não vendo a promessa de que você encontrará um parceiro, uma parceira ou um grande amor, porque relacionamentos amorosos não cabem nesse tipo de simplificação. Mas eu te ajudo a identificar o que te impede de se relacionar e a se preparar para entrar numa relação com mais clareza, maturidade e capacidade de convivência.
Para trabalhar comigo, clique aqui e preencha o formulário de interesse.
Analisarei sua aplicação e, se houver alinhamento, conversaremos sobre os próximos passos.
O analfabetismo relacional
Digo com frequência que as pessoas estão cada vez mais loucas, doentes emocionalmente e psicologicamente, despreparadas e desqualificadas para se relacionar.
E não digo isso como desabafo, digo como leitura de campo, mas também como alguém que construiu, ao longo da vida, relações que duram. Estou há vinte e oito anos numa relação que segue dando certo. Tenho amigos de décadas. E isso só reforça o que venho dizendo: relação boa não cai do céu. Não é para quem quer. É para quem busca.
Para entender melhor essa questão, leia a Carta #017: você está entre os que querem ser ou os que buscam ser?
Muita gente não aprendeu sequer o básico da convivência: escutar, esperar, não julgar, respeitar limites, lidar com frustração e reconhecer que o outro existe para além da aparência, da utilidade e das fantasias.
Por que, Tamer?
Porque relacionamento profundo exige vida interior suficiente para não transformar o outro em trampolim, para não reduzi-lo à função de nos fazer felizes, de aliviar nossas carências ou satisfazer necessidades emocionais que são nossas, não do outro.
Duas pessoas sempre se encontram trazendo sua bagagem: tudo aquilo que já desenvolveram e tudo o que ainda não conseguiram resolver e reorganizar. Elas chegam com o tipo de atenção que aprenderam a dedicar, com o repertório emocional que cultivaram, com a qualidade de escuta que desenvolveram, com a relação que construíram consigo mesmas e com a forma como aprenderam a lidar com seus desejos, frustrações e conflitos.
Relação nenhuma se dá apenas entre dois corpos, duas biografias ou duas intenções; ela se dá também e sobretudo entre dois universos internos e duas visões de mundo, às vezes muito diferentes, divergentes e até conflitantes.
Quando um desses universos internos é estreito demais, desabitado ou pouco elaborado, isso se reflete em algum momento. Seja na incapacidade de aprofundar uma conversa ou de sustentar o relacionamento.
É por isso que autoconhecimento e autodesenvolvimento se encontram aqui com tanta força.
Autoconhecimento permite perceber padrões automáticos e inconscientes, carências, fantasias, medos, repetições e projeções.
Autodesenvolvimento permite trabalhar isso no comportamento, na linguagem, na escuta, na escolha, no modo de se apresentar e de construir uma relação.
Sem esse trabalho, a pessoa pode até querer muito uma relação viva, só que continuará chegando a ela com os mesmos gatilhos que a empurram para a repetição de velhos padrões.
Quem não suporta a própria companhia dificilmente construirá intimidade; quem não consegue se ouvir pouco ouvirá o outro. Quem não cultivou vida interior suficiente encontrará dificuldade quando a presença do outro deixar de ser excitação e passar a exigir convivência. Isso vale para namoro, casamento, amizade, sociedade ou qualquer vínculo que requeira profundidade.
O mesmo deserto
Amizade profunda segue a mesma lógica.
Ela nasce e amadurece onde existe interesse verdadeiro, memória compartilhada, capacidade de atravessar fases, assunto que continua vivo depois da primeira troca, silêncio que não representa ameaça, diferença que não desmonta tudo e disponibilidade que não comparece apenas quando sobra tempo.
Aqui se observa o mesmo problema: muita gente quer proximidade, mas ainda não desenvolveu, no mesmo nível, a competência necessária para ser próxima de alguém.
Há quase 25 anos, acompanho pessoas que percebem, mais cedo ou mais tarde, que os impasses do campo relacional não se resolvem apenas com a troca de ambiente, de círculo social, de parceiro(a) ou de aplicativo. Em algum momento, a pergunta volta para dentro e pede uma investigação mais séria sobre a qualidade da presença e do repertório com que cada um chega aos seus encontros e estabelece seus vínculos.
Abri esta carta trazendo uma pergunta. Encerro com outras duas:
Por que tanta gente encontra tanta gente e, ainda assim, segue solitária?
Por que tanta gente, embora esteja cercada de pessoas e com vida social agitada, se sente só em meio à multidão?
Desconfio que seja porque quase todo mundo quer encontro, mas pouca gente está realmente se tornando encontrável.
Grande 4braço
#TamerJunto




Adorei essa carta. O texto é denso, é não-linear e cada parágrafo requer sua atenção. Algum pedaço, mesmo que um pequeno trecho, da carta te pega, te envolve e te motiva a fazer as coisas diferentes a partir de agora!
Parabéns e obrigado!