Carta #019: o que seus filhos estão aprendendo sem que você ensine
Você não escolhe o que ensina; eles não escolhem o que copiam
Salve! Aqui é o Tamer.
Eu já me vi gritando com meus filhos do mesmo jeito que meu pai gritava comigo. As mesmas palavras; a mesma dureza no tom; a mesma agressividade nos gestos; o mesmo olhar. E eu não fazia porque quisesse. Porque na hora não era eu; era ele.
Definitivamente, não era eu. Era meu pai agindo através de mim: no meu corpo, na minha linguagem e na minha voz. Repetindo os mesmos padrões de sempre.
Isso já aconteceu com você?
Se você é pai ou mãe, aposto que já se viu nessa cena.
Na minha percepção, a paternidade é a maior experiência de aprendizado, crescimento e evolução que um homem pode ter.
Ao longo da minha vida, não encontrei nada mais desafiador e inexplicável do que ser pai, com tudo o que esta experiência envolve: amar alguém mais do que a si mesmo e abrir mão de absolutamente tudo pela outra pessoa, incluindo a própria vida, se necessário e se possível.
Apesar do amor que tenho pelos meus filhos - impossível de mensurar -, apesar do papel e do lugar único que ocupam na hierarquia da minha vida e na minha escala de valores, muitas vezes, me vi reproduzindo, com eles, os comportamentos que meu pai tinha comigo e dos quais eu não gostava nada.
Em todos esses casos, eu não conseguia me enxergar naquilo, embora sempre me reconhecesse responsável pelos meus atos.
Como isso é possível? Como pode alguém reproduzir exatamente o que reprova?
Por que, Tamer?
Porque as pessoas só dão o que têm.
Nossas ações e reações são reflexos, entre outras coisas, das nossas memórias e da nossa história de vida.
A gente não dá o que não tem. Não porque não queira, mas porque não consegue, por absoluta falta de repertório. Simplesmente assim.
Quando a água brota no teto do quarto
Recentemente, um mentorado me procurou porque seu filho, uma criança de apenas três anos, começou a repetir certos comportamentos dele (o pai) e da mãe. Isso foi bastante perturbador porque ele viu no filho o espelho, a cópia daquilo que sempre o incomodou, mas que nunca havia trabalhado em si mesmo.
Isso produziu nele um impacto especial, uma espécie de susto, porque aquilo que ele sempre tratou como hábito, inofensivo até, apareceu fora dele, na pessoa que ele mais ama, com ares de inocência e um futuro inevitável embutido.
Muita gente consegue conviver anos com isso sem tratar o assunto com a devida importância. Dá nome bonito para a própria inadequação, chama de temperamento, cansaço, estresse, traço forte ou jeito de família. Ajusta uma borda aqui, pede desculpa ali e vai administrando a merda como quem administra uma infiltração pequena.
Até o dia em que a água começa a brotar no teto do quarto do(a) filho(a).
Até este momento, aquele comportamento ainda podia ser racionalizado e justificado como personalidade, temperamento forte ou jeito de ser.
Mas, no instante em que apareceu no filho, perdeu o aspecto de detalhe pessoal e ganhou escala geracional.
A Bíblia faz referência a essa questão, em Números 14:18:
O Senhor visita a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e a quarta geração
Há certas coisas que a pessoa não enxerga em si mesma enquanto ainda estão restritas à sua própria forma de funcionar, mesmo que produzam algum grau de inadequação na sua vida ou interfiram de alguma forma nos seus relacionamentos. Apesar dos pesares, ela vai levando.
Sabe aquela velha filosofia de botequim: deixa a vida me levar, vida leva eu? Basicamente, é isso.
Até que elas surgem num filho. Aí, a leitura muda; o que antes era tolerado ou administrado como mero defeito ganha ares de herança, de legado. E essas coisas, quando a gente não escolhe conscientemente o que está deixando e para quem deixa, se tornam assuntos muito mais sérios e profundos do que um mero jeitinho de ser.
Na PNL Sistêmica, a gente chama essa transmissão de modelagem. Modelar é o ato de escolher um modelo e espelhar (ou repetir) suas estratégias e comportamentos. A modelagem pode ser feita conscientemente, por meio da escolha deliberada, ou inconscientemente. Este é o caso das crianças, por razões óbvias.
Uma coisa é copiar um mestre que você escolheu. Outra, bem diferente, é incorporar, sem saber, coisas de quem te criou.
A modelagem é inerente à natureza humana. O ser humano aprende observando, por convivência, por repetição e por familiaridade. Aprende mapeando o ambiente onde é formado e as pessoas significativas desse ambiente, responsáveis por sua formação: a forma como agem, como se comunicam e como se relacionam.
A maior parte de tudo o que formou a nossa visão de mundo, ou nosso mapa da realidade, como chamamos na PNL Sistêmica, não chegou até nós por explicação, mas por exposição continuada e consistente.
Evidentemente, isso não significa negar a genética. Ela influencia predisposições, sensibilidades e temperamentos, mas não determina, por si só, o comportamento de uma criança.
O que a literatura tem mostrado há décadas é que o desenvolvimento humano não se explica por um gene soberano nem por uma herança biológica fechada, mas por uma interação contínua entre predisposição e ambiente. É por isso que a ciência já não trata genética como destino.
Este material de divulgação científica resume isso com clareza e a literatura especializada vai na mesma direção ao mostrar a importância da interação entre genes, temperamento, apego e parentalidade no desenvolvimento infantil.
É por isso que um filho aprende, ainda muito cedo, coisas que ninguém se sentou para lhe ensinar formalmente. Ele aprende porque está vendo. E ver, quando se vive imerso na convivência de alguém que ocupa um papel tão importante na sua formação, como pai e mãe, é a forma mais poderosa e eficaz de aprendizagem.
A criança observa como os pais se comportam em casa, como agem quando estão cansados ou sobrecarregados, como os dois adultos se tratam, como conduzem a relação, como conversam ou evitam conversas difíceis, como discutem, como resolvem seus problemas e até como fogem deles.
Fora de casa, ela está atenta a como os pais tratam os outros, como se relacionam socialmente e como lidam com seus desafios.
Aos poucos, tudo isso vai se organizando dentro dela em programas neurolinguísticos e se torna sua bússola orientadora, seu mapa de mundo ou, numa linguagem mais atual, seu GPS: o mecanismo que orientará sua atitude frente à vida, seus comportamentos e suas relações, incluindo seu relacionamento consigo mesma, sua autopercepção e sua autoestima.
Na Carta #007: o exemplo que pouca gente quer seguir (e todos deveriam), chamei a atenção para a força do exemplo.
Embora os adultos possam (e devam) utilizar conscientemente a modelagem para reproduzir estratégias e comportamentos de excelência, com a criança a questão ganha outro peso, porque o exemplo não está sendo modelado por alguém capaz de escolher conscientemente o que quer ou não modelar.
Está sendo copiado por uma criança ainda em formação, sem filtros e, portanto, com sua identidade totalmente aberta ao que se repete e vai sendo naturalizado dentro de casa (ou fora dela), pelas figuras mais importantes da sua vida.
A educação acontece para além da palavra
Muita gente ainda pensa a educação como transmissão consciente de valores, mas isso é apenas parte do processo. Sim, a palavra ou a linguagem verbal orienta, rotula e dá direção. Mas a estrutura profunda da formação de uma criança acontece na atmosfera da casa, na linguagem não verbal e naquilo que a PNL Sistêmica chama de mente do campo: o espaço de vida, o campo relacional, a soma dos ambientes físico e psicológico em que a criança está inserida.
É por isso que os filhos não lidam com a intenção dos pais, lidam com a conduta deles - ou com aquilo que eles fazem repetidamente.
Em muitos casos, esse campo de formação não é composto apenas por pai e mãe. Ele inclui avós, tios, padrastos, madrastas, irmãos mais velhos e outros adultos que convivem intensamente com a criança. Quanto mais presença, mais influência e quanto mais convivência, mais modelagem.
Uma pessoa pode dizer que valoriza o diálogo e, ainda assim, responder com aspereza ou violência toda vez que se sente contrariada. Pode afirmar que quer criar um ambiente seguro e, no entanto, manter a casa sob tensão constante porque não sabe o que fazer com a própria ansiedade. Pode declarar que quer filhos livres e, no cotidiano, treiná-los para o medo, a insegurança, a vigilância e o controle porque não suporta imprevisibilidade.
No ambiente familiar, o discurso ocupa um lugar, o comportamento ocupa outro, superior, mais importante e mais significativo, porque ele é vivido, não apenas ouvido.
Na Carta #002: Tudo é comunicação. Comunicação é tudo. É tudo comunicação., mostrei que estamos comunicando o tempo todo, mesmo que não tenhamos consciência disso. Tudo em nós, de alguma forma, comunica.
Segundo a PNL Sistêmica:
É impossível não comunicar; a falta de resposta já é uma resposta
Na infância, a coisa ganha outro peso, porque a criança vai construindo sua gramática relacional a partir das microcenas repetidas no seu dia a dia, especialmente pela forma como os pais se dirigem a ela, a acolhem ou rejeitam e como recebem e corrigem os erros dela.
É assim que uma criança aprende o que fazer com a frustração, como lidar com o amor e com a rejeição, o que esperar dos relacionamentos, como se posicionar diante da autoridade, o que é conflito, o que é cuidado, o que é limite, o que deve ser escondido, o que pode ser dito, o que precisa ser reprimido e até o quanto de si é seguro expor.
A sombra que se transmite
O aspecto mais importante da modelagem inconsciente é que ela não é seletiva; ela não escolhe o que compartilha; ela não transmite apenas o que o adulto quer ou aprova em si mesmo; ela também transmite a sua sombra: suas inadequações e traços negativos.
Na Carta #010: só autoconhecimento é pouco, expliquei por que identificar um padrão não basta, se ele continua se projetando no comportamento.
No campo da modelagem, isso é especialmente notável.
Você, pai ou mãe, pode saber de onde vêm certas reações e conectá-las à sua infância e à relação com seus pais; pode reconhecer suas feridas e dar nome a seus gatilhos; pode até ter clareza sobre a origem de determinados padrões. Mas, se o padrão continua operando na prática, você segue ensinando, impactando o ambiente e deixando cicatrizes em quem convive com você de perto.
Por essa razão, é, de fato, assustador ver um filho repetindo um padrão que reprovamos em nós e que, obviamente, nunca quisemos ensinar nem perpetuar.
O espanto é ainda maior quando nasce da experiência de perceber que aquilo que ainda não foi suficientemente trabalhado e reorganizado em você começou a encontrar continuidade nos seus filhos ainda muito cedo, em tenra idade.
Há pais que se descobrem falando com o filho no mesmo tom que juraram nunca usar. Há mães que se percebem repetindo formas de controle que sempre criticaram. Há adultos que, somente diante da criança, percebem que muito do que chamavam de escolha vinha sendo repetido por eles uma vida inteira, de forma automática e inconsciente.
Não raro, o(a) filho(a) se torna o espelho que obriga o adulto a ver com nitidez aquilo que, dentro de si, ainda vinha sendo tratado com normalidade.
Neste caso, o que dói não é apenas a semelhança ou o espelhamento, mas, sobretudo, a expectativa sobre o futuro dos filhos. Dói enxergar nitidamente que aquilo que não foi cuidado em você já está fazendo parte da formação de uma pessoa a quem lhe cabe educar, orientar e preparar para a vida.
Se você, como eu, quer que seus filhos sejam melhores que você e tenham uma vida melhor do que a sua, isso é um problema.
Você não é culpado pelo que recebeu, mas é responsável pelo que perpetua.
O filho revela o adulto que educa
O filho é aquele que revela, com honestidade desconcertante, o adulto que o educa.
Se liga na #DicaDoTamer:
Se você quer entender o comportamento de uma criança, conheça os pais dela
Não estou afirmando que parentalidade explica tudo. Filhos não são robôs nem clones dos pais. Outros fatores também estão em jogo, como temperamento, escola e até a forma singular como cada criança responde ao ambiente.
Mas, se você quer compreender de verdade o comportamento de uma criança, não pode olhar só para ela, precisa olhar para os pais, para a casa e para o campo relacional em que ela está crescendo. Isso não é achismo.
Estudos com famílias adotivas mostram que conflitos entre pais e filhos estão associados a problemas de conduta ao longo da vida, mesmo sem compartilhamento genético direto, evidenciando o papel relevante do ambiente e das relações na formação do comportamento infantil.
A criança devolve, em miniatura, aquilo que muitas vezes estava naturalizado demais em nós para ser notado. Um padrão emocional e comportamental repetido por uma criança de três anos às vezes diz mais sobre a psicosfera de uma casa do que qualquer outra coisa.
Por isso, este tema aborda uma questão ainda maior e mais sensível do que parentalidade: a herança comportamental. Sim, nosso jeito de existir vai impactando e treinando, todos os dias, os nossos filhos.
Quando um filho repete nosso jeito de agir, falar, estar ou existir, o que se observa não é apenas uma cópia nossa, mas o tipo de mundo que ele está construindo e, inevitavelmente, habitando.
Uma criança que cresce diante de pais que reconhecem e corrigem prontamente suas próprias falhas, que encaram os conflitos com maturidade e lucidez, que sabem perdoar e pedir perdão, que colocam limites sem humilhar, que se respeitam e respeitam as outras pessoas tende a construir caminhos mais saudáveis e férteis para a própria vida - e para aqueles que virão depois dela.
Uma criança que cresce com pais agressivos e desequilibrados, exposta a acessos de raiva, explosões, ironias, frieza e distanciamento, hostilidade, silêncio punitivo e toda a sorte de desrespeito também está aprendendo como deve conduzir a sua vida e as suas relações.
A criança em formação não está aprendendo apenas como agir, mas, também, o que o mundo exigirá dela para que ela tenha lugar nele.
A partir do que acontece na sua casa, ela aprenderá se o amor precisa ou não ser merecido, se é seguro errar, se as diferenças devem ser acolhidas ou combatidas, se a vulnerabilidade é uma virtude ou uma fraqueza perigosa; enfim, aprende como deve existir para continuar pertencendo afetivamente aos seus contextos de interação.
É por isso que boa intenção não resolve o problema. Nós da PNL Sistêmica partimos do seguinte princípio:
Todo comportamento tem uma intenção positiva
Naturalmente, isso inclui pais e mães. Mas boa intenção, sozinha, não governa a formação de ninguém. Ela precisa vir acompanhada de uma atitude correspondente.
O problema é que, dado o baixíssimo nível de desenvolvimento pessoal da imensa maioria das pessoas, frequentemente há uma grande distância entre intenção e comportamento.
Quando os pais batem nos filhos com a intenção de serem respeitados, o resultado costuma ser medo e insegurança, não respeito, porque as pessoas lidam com nossos comportamentos, não com nossa intenção.
Não há nada mais eficaz na formação de uma criança do que a congruência entre aquilo que seus pais dizem e aquilo que eles vivem. E essa coerência não brota sem desenvolvimento pessoal, sem autorresponsabilidade, sem disposição e comprometimento verdadeiro para mudar comportamentos e sem a coragem para quebrar padrões que, até então, vinham se repetindo de geração em geração como se fossem naturais.
A pedagogia do viver
Ponha uma coisa na sua cabeça: na convivência com você, seus filhos aprenderão como estar no mundo a partir do seu modo de estar no mundo. Eles aprendem pelo que você ensina deliberadamente, mas também e, fundamentalmente, com mais força, pelo seu exemplo.
É assim que a modelagem funciona.
A repetição vai ganhando peso, o peso vai ganhando autoridade, e a autoridade vai se convertendo em caminho de vida para quem ainda está em formação.
Se seus filhos convivem com descontrole, frieza, impaciência, fuga, ironia ou ausência, esses caminhos vão se formando dentro deles; se eles convivem com presença, atenção, equilíbrio, firmeza, respeito, reparação e escuta, outros caminhos vão se abrindo.
Em ambos os casos, a criança está sendo iniciada numa certa pedagogia do viver.
É por isso que desenvolvimento pessoal sério nunca diz respeito apenas ao indivíduo. Ele sempre transborda, alcançando ambientes, pessoas e relacionamentos.
Quem trabalha a si mesmo(a) e a sua forma de funcionar não melhora apenas a própria vida; altera a atmosfera da casa e as pessoas com quem coabita.
Quem aprende a reparar seus erros não se transforma sozinho; ensina, pelo exemplo repetido, que vínculos não precisam se desfazer diante de falhas; quem trata a própria dor com mais consciência deixa de projetá-la como força bruta sobre quem ainda não tem estrutura para compreender de onde ela veio, tampouco se defender; quem desenvolve a si mesmo(a) e reorganiza suas emoções e comportamentos deixa de sofrer e de fazer sofrer.
O futuro que já começou
No meu trabalho, dois padrões se repetem com consistência.
Primeiro (muito frequente): o(a) mentee me procura quando a coisa tá feia e já chegou num nível insuportável. Quando está tomando aquele caixote, bebendo água salgada e areia entrando por todos os buracos do seu corpo. Aí, nesse momento de extrema turbulência, quando está quase morrendo afogado, ele(a) vem buscar ajuda. Pouca gente busca desenvolvimento pessoal de forma preventiva. Homem, então, é praticamente impossível.
Segundo (100% dos casos): a pessoa chega com uma queixa inicial - casamento, relacionamento, filho, trabalho, ansiedade etc. - e descobre que o problema real é outro. Mexe daqui, revira dali, e a conversa muda de rumo. Existe um padrão operando na pessoa, e esse padrão já começou a ocupar espaço demais na vida dos outros, principalmente dentro de casa.
A modelagem não é uma sentença, é um mecanismo natural. Quando um adulto aprende a se observar, a se escutar e, sobretudo, a se trabalhar, ele não resolve apenas a própria experiência, ele muda todo o seu entorno, a começar pelo ambiente emocional em que vive e pelas pessoas que o compartilham com ele.
E pode estar definindo o futuro dos seus filhos.
Você reconhece nos seus filhos padrões repetidos dos pais ou enxerga, na sua própria forma de funcionar, padrões automáticos e inconscientes que se recusa a transmitir como herança?
Eu posso te ajudar. O ideal é agir antes de a água brotar no teto do quarto dos seus filhos.
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Sua aplicação será analisada pessoalmente por mim, para garantir uma sintonia real entre sua necessidade e o processo da mentoria. Se houver, envio todas as informações para agendarmos nossa primeira conversa.
Grande 4braço
#TamerJunto



