Provocrônica #001: última tentativa
Ela chegou dizendo que estava cansada.
— Vim por indicação. Não acredito, mas vim. Última tentativa.
Seguiu-se um silêncio pesado, com cara de desilusão e desesperança.
Depois de um tempo, falou:
— Eu já li tudo. Já fiz de tudo. Já acreditei em tudo. E continuo aqui, no mesmo lugar.
Eu não disse nada; apenas esperei.
Ela continuou:
— Você acredita mesmo nessas coisas? No que você faz? Vocês prometem que a gente vai mudar, que vai conseguir... E eu acreditei, porque a vida sem isso fica sem graça, sem direção. Mas nada muda. Continuo repetindo os mesmos erros, fazendo as mesmas coisas, me relacionando com as mesmas pessoas.
Outro silêncio.
Eu perguntei:
— O que você quer, especificamente?
Ela pensou, pensou e disse:
— Não sei. Acho que quero alguém que me diga a verdade: que é difícil; que me mostre o caminho verdadeiro, mesmo que eu não consiga.
Eu respondi:
— Isso você já sabe. No fundo, todo mundo sabe. Por isso você está aqui. Talvez você queira alguém que caminhe ao seu lado enquanto faz suas próprias descobertas.
Ela ficou em silêncio de novo. Dessa vez, um silêncio diferente.
Depois de alguns minutos, falou baixo, como se pensasse alto:
— É. Acho que é isso.
A sessão ia terminando, e fiz uma provocação: você tem alguma pergunta?
— Não. Estou com raiva de você.
Eu respondi:
— Seu processo já começou. É por isso que você vai voltar. Até a próxima sessão.
Provocrônicas
Histórias provocacionais acumuladas em quase 25 anos desenvolvendo pessoas.
Este caso completa a Provocatória, Carta #016: contra a autoajuda (e a favor dela).



