Provocrônica #004: o eco
A criança não suporta frustração. Quando quer alguma coisa, não pede, grita. Faz pirraça; joga-se contra o chão.
A mãe veio a mim desorientada.
O pai está acostumado, conhece a dinâmica desde menino. Apesar disso, aprendeu a se comunicar sem gritar. Fez treinamentos e terapia.
A criança passa o dia com os avós.
A avó resolve tudo no grito: grita com o marido e com os filhos. Grita com o mundo.
O avô responde com silêncio ou ausência. Ele sai da casa, um campo de guerra fria onde o grito é o idioma oficial. Desde sempre.
O pai da criança cresceu ouvindo o mesmo grito e jurou que seria diferente. Mas a criança vai continuar sendo formada pelo mesmo ambiente e pelo que vive repetidamente, com mais intensidade e mais autoridade emocional.
O grito da avó ecoa todos os dias, com décadas de prática. O tom do pai está apenas ensaiando, no pouco tempo que tem de aplicação. Ele trabalha fora o dia inteiro, mas, quando está perto, mostra que existe um outro jeito.
Eu disse à mãe:
- Você não vai anular o grito da avó nem o silêncio do avô. Não é o seu papel, nem o do seu marido. O trabalho de vocês é estar presentes, apresentar outra alternativa e confiar que a criança vai internalizá-la a ponto de superar o peso da influência dos avós.
Ela vai crescer sabendo que há pelo menos duas opções. A escolha será dela.
Provocrônicas
Histórias provocacionais acumuladas em quase 25 anos desenvolvendo pessoas.
Este caso completa a Provocatória, Carta #019: o que seus filhos estão aprendendo sem que você ensine.



