Provocrônica #010: o corredor
Último horário. Corredor vazio do segundo andar, por volta das 22h30.
Eu saía da sala e me dirigia à coordenação para deixar meu material e me despedir, quando ele me abordou.
Visivelmente transtornado, rosto contraído, olhos arregalados, respiração curta e voz trêmula, ele me disse:
— Tamer, estou indignado. Não sei como não dei uma porrada no professor Fudêncio.
Fudêncio era um PhD muito respeitado entre seus pares por causa da sua reconhecida competência.
Eu tinha pouco contato com ele. Conversamos longamente uma única vez em que nos encontramos na sala dos professores, numa véspera de feriado em que todos já tinham ido embora, exceto nós dois.
— Calma. O que houve? — perguntei
— Fiquei em P3 na matéria dele.
P3 era uma prova prevista para quem havia perdido a P1 ou a P2. Nada incomum na rotina universitária. O aluno sabia que precisava fazer a prova, que dependia dela para obter a média de notas do semestre e, como qualquer pessoa minimamente interessada em se orientar, procurou o professor da disciplina.
— Fui conversar com ele — continuou o aluno.
— Professor, como está a P3?
— Não sei — respondeu ele.
— Como assim? O senhor não é o professor da matéria?
— Sim, sou. Mas não sou eu quem prepara a prova.
— E quem prepara? Preciso conversar com essa pessoa para saber detalhes e me preparar.
O professor fez uma breve pausa e respondeu:
— Lúcifer.
O aluno ficou em silêncio, quase incrédulo. O professor virou as costas e saiu.
Nosso alunado era composto de pessoas adultas, na maioria chefes de família, homens e mulheres que trabalhavam de dia e estudavam à noite para melhorar de vida.
Este aluno, especificamente, era muito sério e comprometido.
Apenas olhei nos seus olhos e disse:
— As pessoas só dão o que têm. E o que você tem para dar é melhor do que isso. Agora, vai para casa descansar e esfria a cabeça. Espero você aqui amanhã, antes do primeiro horário. A gente toma um café e conversa.
E descemos juntos.
Provocrônicas
Histórias provocacionais acumuladas em quase 25 anos desenvolvendo pessoas.
Este caso complementa a Provocatória, Carta #025.
Circule
Conto com você para fazer este trabalho circular. Vivemos um momento de dispersão e superficialidade, por isso um acervo como este merece chegar a novas mentes e corações e ajudar ainda mais pessoas.
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