Carta #020: o significado que te move (ou te paralisa)
Não é o que aconteceu; é o significado que você deu
Salve! Aqui é o Tamer.
O ano era 2019. A Duda, minha filha, começava o nono ano do ensino fundamental.
Um dia, no início do ano letivo, ela chegou em casa muito apreensiva, porque sua nova professora de matemática, D. Maria Helena, uma senhora de quase oitenta anos, com sessenta de carreira, era amplamente conhecida por ser muito rigorosa.
Ela não sorria e passava uma ficha gigantesca de dever de casa por dia. Se o aluno não fizesse a tarefa, ela anotava.
Os alunos tinham pavor dela, e esse pânico se espalhava por toda a escola. Se possível, trocariam de turma para escapar das garras da D. Maria Helena.
Eu disse à Duda:
- Minha filha, um professor não tem que ser simpático, tem que ser competente. E mais: o professor é um facilitador por excelência, não um dificultador. Nenhum professor é rigoroso de sacanagem, por desejar o mal dos seus alunos. Um professor rigoroso quer extrair o máximo potencial do seu aluno, para que ele seja melhor do que o próprio professor naquela matéria. D. Maria Helena é a sua oportunidade de aprender matemática de verdade, não a sua algoz.
Se você, leitor(a), já teve um(a) professor(a) malvado(a), babaca mesmo, eu te entendo. Mas reflita comigo. Parafraseando Śrīla Prabhupada - líder religioso indiano, fundador da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, mais conhecida como Movimento Hare Krishna -, quando indagado por um discípulo sobre os bons gurus e os maus gurus:
- Não existem bons gurus e maus gurus; existem gurus e não-gurus.
Partindo do mesmo princípio, afirmo:
- Não existem bons professores e maus professores; existem professores e não-professores. Mesmo que estes estejam à frente de uma sala de aula. Particularmente, conheci alguns no tempo em que fui professor universitário.
O que aconteceu para que eu percebesse aquela situação de forma completamente diferente da minha filha e de todos os outros adolescentes que tremiam de medo só de ouvir falar em D. Maria Helena?
O fato de eu não ser aluno dela? Minha idade? Minha experiência de vida? O fato de eu também ser professor? Minha genética? O ambiente em que fui criado?
Definitivamente, não. O que nos separava não era o que vivemos, estávamos vivendo ou deixamos de viver, era o significado que cada um de nós deu ao mesmo evento.
A armadilha
Dois irmãos crescem com um pai violento.
Um se torna agressivo; o outro jura nunca levantar a mão contra ninguém. A mesma casa, o mesmo pai, o mesmo sangue e o mesmo contexto. Mas destinos opostos.
O primeiro interpretou: o mundo é assim. A violência é pedagógica, e quem não bate, apanha.
O segundo interpretou: isso é traumático. A violência não resolve, desumaniza as pessoas.
Dois significados diametralmente opostos geraram duas respostas comportamentais completamente distintas.
O problema é que, na infância, a gente não escolhe os significados; eles são absorvidos. Uma criança de cinco anos não tem ferramentas para se questionar:
- Os significados que estou aprendendo sobre amor, dinheiro, relacionamentos e sobre mim mesmo(a) são verdadeiros? Eles me são úteis? Eles me ajudam ou me atrapalham?
Ela só absorve. E repete. Aos dez, aos quinze, aos vinte… Às vezes, uma vida inteira repetindo interpretações formadas numa idade em que não tinha a chance de escolher.
Mas, em algum momento da vida, você pode adquirir consciência para identificar os significados que te bloqueiam. O que diferencia o desenvolvimento pessoal é justamente a passagem da absorção inconsciente para a escolha consciente e deliberada. Em algum momento, você pode se perguntar:
- Isso é meu ou herdei de alguém? Isso ainda faz sentido hoje?
E pode, deliberadamente, escolher um novo significado, melhor e mais útil.
Isso é diferente da positividade tóxica e barata dos cocôaches da internet, que mandam você trocar a frase sem alterar a estrutura.
Estou falando de um trabalho sério de autoconhecimento para identificar padrões limitantes e revisar, com clareza e lucidez, o significado que governa sua vida.
Significados são crenças. Escrevi sobre isso na Carta #013.
O que chamo de significado aqui é o mesmo que chamei de crença lá: um programa neurolinguístico que governa sua percepção, suas emoções e suas decisões. A diferença é que agora estou mostrando como esses programas nascem e como você pode revisá-los.
A mente humana é uma máquina de atribuir significado. Ela não suporta o vazio. Diante do novo, ela vai buscar um significado nas suas próprias memórias e, se não encontra o que aquilo significa, inventa.
Seu chefe critica seu trabalho. Entre as inúmeras interpretações possíveis, você provavelmente escolherá uma entre essas duas:
- O feedback é um ato de amor; ele está me ajudando a melhorar.
- Ele não gosta de mim; está querendo me demitir.
A diferença é que a primeira interpretação te move assertivamente. A segunda te paralisa ou te move na direção errada.
Por que, Tamer?
Porque o significado é isento de neutralidade. Ele age de forma sistêmica, ativando um programa emocional e comportamental completo.
Se você acredita que será demitido(a), começa a se comportar como quem já está com um pé para fora. Você passa a evitar o chefe, trabalha com medo, entrega menos e, de repente, o que era uma interpretação vira profecia autorrealizável.
E o que é pior: você nem percebeu que fez a interpretação. Ela veio como programação automática e inconsciente, e você reagiu como se aquilo fosse uma verdade absoluta.
Já disse Henry Ford:
Se você pensa que pode ou pensa que não pode, em ambos os casos você tem razão
A herança
Na Carta 19, mostrei como herdamos os comportamentos de quem nos criou.
Agora, quero mostrar que também herdamos o significado que aquelas pessoas davam ao mundo, às coisas e às pessoas.
Uma criança que cresce ouvindo “dinheiro não dá em árvore” não aprende apenas como vai lidar com dinheiro, aprende que dinheiro é difícil e desenvolve uma mentalidade de escassez. Se ela não ressignificar isso a tempo, aos 40 anos estará repetindo os mesmos padrões limitantes com suas finanças pessoais. Não por burrice ou falta de educação financeira, mas por causa do significado instalado na sua infância primitiva.
O mesmo vale para o amor ou para a forma como lidamos com nossas emoções. Por exemplo:
- Casamento é para sempre, até que a morte os separe.
- Homem não chora.
Essas frases não são opiniões, são sentenças. São programas de significado. E elas governam sua vida sem pedir licença e sem que você perceba.
O problema não é o evento que você viveu, é o significado que você atribuiu (e continua atribuindo) a ele. E, provavelmente, a maior parte desses significados não foi escolhida; foi herdada, absorvida e vem sendo repetida.
Segundo a PNL Sistêmica:
Em geral, não é a realidade que nos limita, mas a forma como a percebemos
A identidade
Confundir comportamento com identidade é um equívoco grave que a maioria das pessoas comete.
Depois de repetir um significado por anos, você acaba deixando de tratá-lo como uma interpretação e passa a acreditar que ele é você:
- Eu sou desconfiado(a) assim mesmo. Não. Você só aprendeu a interpretar o mundo como território perigoso.
- Eu sou uma pessoa ansiosa. Não. Você só aprendeu a criar expectativas catastróficas.
E você repetiu tanto isso que esqueceu que aprendeu.
Ponha uma coisa na sua cabeça definitivamente:
Você não é assim, você funciona assim. Por isso, desenvolvimento pessoal não é um trabalho para mudar você, e sim para mudar a forma como você funciona.
Para entender como classifico um processo completo de desenvolvimento pessoal, leia a Carta #010.
É na distinção entre “eu sou assim” e “eu aprendi a funcionar assim” que consiste a diferença entre prisão e liberdade; entre limitação e possibilidade. Se você é assim, não tem jeito. Se você aprendeu a funcionar assim, pode aprender a funcionar de outro jeito.
Seres humanos funcionam com base em padrões mentais e comportamentais, que a PNL Sistêmica chama de programas neurolinguísticos.
A libertação
A boa notícia é que, se a maioria dos significados que te travam e atrapalham a sua vida foram absorvidos sem escolha, agora você pode escolher.
Naturalmente, o caminho não é culpar o passado, é revisar o significado. Outro erro muito frequente e muito limitante que só atrapalha o processo: culpar a si mesmo(a), culpar as outras pessoas ou culpar as circunstâncias.
E como se faz isso?
É muito simples (não significa que seja fácil); basta se perguntar:
- Que outro significado posso dar a este comportamento ou evento?
Ao longo desta carta, dei alguns exemplos de significados possíveis para uma mesma experiência.
Mas existe uma distinção importante aqui: ressignificação não implica em apagar o fato nem mentir para si mesmo(a), fazendo de conta que ele não aconteceu. O evento continua ali, sendo exatamente o que foi. O que muda é o lugar a partir do qual você reinterpreta aquilo e passa a responder a partir dali.
Um significado novo só é realmente melhor quando tira você de um estado sem recursos e te coloca num estado de recursos. Ele reorganiza a experiência de um jeito que deixa você menos refém e mais autorresponsável. Se o novo significado só maquia a ferida, você não ressignificou, só trocou uma prisão por outra, com uma narrativa mais bonita.
E por que tanta gente continua agarrada ao significado antigo, mesmo quando ele destrói sua própria vida?
Porque ele pode oferecer algum ganho secundário, como, por exemplo, inocentar a pessoa da responsabilidade de mudar. Até aqui, ele explicou, justificou, trouxe alguma coerência e vem evitando o desconforto de ter que enfrentar a mudança e viver de outro jeito. É por isso que tanta gente prefere uma prisão conhecida a uma liberdade que exigirá o desconforto de uma nova aprendizagem.
Outro ponto que não podemos ignorar é: revisar significados pode ser desconfortável, porque frequentemente mexe com as histórias que você vem contando para si mesmo(a), incluindo a narrativa sobre quem você é. Isso pode fragilizar ou desmontar a identidade que você construiu em cima dessa dor. E não há nada mais doloroso do que questionar quem somos. Mas isso é papo para outra carta.
Mas esse é o único caminho.
Uma mulher que foi traída pode passar o resto da vida interpretando:
- Homem não presta. Todos os homens são canalhas. Não dá para confiar em homem.
Esse significado vai protegê-la de um novo risco? Vai, sem dúvida. Mas também vai paralisá-la, impedindo-a de viver um novo amor, um novo relacionamento e uma nova vida. E isso pode fazê-la viver amarguradamente a vida inteira.
Mas ela pode escolher outro significado:
- Fulano me traiu. Isso tem a ver com ele, não comigo.
O evento não vai mudar, mas a vida depois dele mudará para sempre.
A escolha
A PNL Sistêmica parte do seguinte princípio:
É melhor ter escolhas do que não ter escolhas
Até aqui, meu objetivo foi mostrar que em comportamento humano não existe destino. Você tem escolha. Você pode ficar preso(a) no que aconteceu, ou pode encontrar uma forma nova e útil de lidar com o evento.
Embora seja um mecanismo simples, como eu disse acima, não significa que seja fácil. Pode ser que você não consiga ou não queira explorar isso sozinho(a). O fato inevitável é que, de uma forma ou de outra, você tem um trabalho a fazer.
Eu posso te ajudar a atualizar o seu sistema operacional, sem que isso implique no apagamento ou na invalidação do seu passado.
Para trabalhar comigo, clique aqui e preencha o formulário de interesse.
Vou analisarei sua aplicação e, se houver alinhamento, conversaremos sobre os próximos passos.
O resto é com você. Ninguém vai revisitar os seus significados no seu lugar. O que não dá é para continuar terceirizando o controle da sua vida para interpretações que você fez em algum lugar do passado e nunca mais questionou.
Grande 4braço
#TamerJunto






