Carta #021: a romantização do propósito
Não te falta propósito; te falta clareza
Salve! Aqui é o Tamer.
O ano era 2000. Naquela época, eu trabalhava na indústria de shopping centers, numa das empresas mais respeitadas do país. Um ambiente muito competitivo, de gente muito qualificada, mas também muito desajustada emocionalmente. Eu trabalhava na área comercial e estava sempre entre os primeiros do time. Mas isso tinha um preço: com trinta anos de idade, eu dormia à base de ansiolíticos e já apresentava alguns problemas psicossomáticos causados pelo estresse, como uma coceira insuportável e persistente na sola do pé que produziu uma ferida. E eu não andava descalço nem frequentava praia.
Meu trabalho era glamouroso, eu tinha renda e reconhecimento profissional, mas me faltava algo que não sabia explicar. E não tinha sequer repertório para dar nome às minhas emoções e entender o que estava acontecendo. Nem tempo ou intenção de me dedicar a descobrir.
Numa quarta-feira comum, por volta das 11h, eu já estava no corre de sempre. Na área central da administração do São Conrado Fashion Mall, no Rio de Janeiro, passava um fax para um cliente, quando meu celular tocou. Era minha única irmã do outro lado da linha:
- Você vai ou não fazer o treinamento? A moça me ligou dizendo que o prazo está esgotado e que você vai perder a sua vaga.
Eu teria que deixar meus compromissos, me despencar para o interior do Espírito Santo e perder dois dias de trabalho. Além disso, naquela altura do campeonato e no vuco-vuco que era a minha vida, eu não tinha a menor intenção de fazer um treinamento comportamental. Definitivamente, eu não acreditava nessas coisas. Mas, para me livrar da insistência da minha irmã, topei:
- Pode confirmar minha inscrição.
Eu ainda não sabia, mas aquela foi a melhor decisão que tomei na minha vida.
No dia 02 de junho de 2000, às 20h59, entrei naquele salão - o espaço sagrado onde minha vida seria transformada para sempre.
E no dia 04 de junho de 2000, depois de três dias muito intensos e impactantes, na última vivência do treinamento, de olhos vendados e em meio ao barulho e à agitação, rodeado daquelas pessoas que, três dias antes, eram ilustres desconhecidas - mas agora eu sentia como se fossem da minha família -, uma voz falou dentro da minha mente, tocou no fundo do meu coração e fez estremecer a minha alma:
- Quero fazer pelas outras pessoas o que esses caras fizeram por mim.
E foi assim que descobri a minha missão.
A romantização
Recentemente, um novo mentee me disse:
- Tamer, precisamos resolver um assunto importante: não tenho um propósito.
Trata-se de uma pessoa inteligente e preparada. Ele é empresário, tem uma carga de trabalho intensa e acumula diversas funções. Mas acordava todos os dias com a sensação de que faltava o tal propósito.
E ele não está só.
Depois do advento dos cocôaches da internet, as pessoas descobriram que vivem sem um propósito. Eles transformaram essa ideia em produto, em destino místico, em um baú no fim do arco-íris que você só alcança depois de pagar R$997 num curso online. Venderam a ideia de que você precisa deixar um legado para justificar o fato de estar vivo(a).
A romantização do propósito fez você acreditar que, se não está impactando o mundo ou mudando o curso da humanidade, sua vida é vazia e sem sentido.
Geralmente, a busca por propósito e por deixar um legado para a posteridade não nasce da profundidade e de um legítimo cuidado com os outros. Nasce do ego. O ego quer se sentir especial, necessário, escolhido, diferente da massa. E, para sustentar essa fantasia, despreza o concreto, o comum, o ordinário, o útil e o silencioso. Prefere a promessa de grandeza a uma vida simples e à responsabilidade de viver com sinceridade e verdade. É mais confortável imaginar-se destinado a algo monumental do que reconhecer que, talvez, o seu trabalho agora seja simplesmente sustentar a casa, cuidar do casamento e dos filhos e dar o melhor de si, fazendo bem-feito o que precisa ser feito.
Na Carta #020, mostrei que o significado que você atribui às coisas pode te mover ou te paralisar.
Pois bem. Acreditar que propósito precisa ser épico é um significado que paralisa, porque você deixa de enxergar o sentido que já está ali, nas pequenas coisas, nos seus atos cotidianos, nas suas escolhas mais simples e no cuidado com as pessoas com quem você se importa.
Propósito não é letreiro luminoso nem grito de guerra, e não tem a ver com salvar o mundo. Essa história foi inventada para manter você angustiado(a) e insatisfeito(a), porque, se você descobrisse que o que vem fazendo já é suficiente e que sua vida já é carregada de propósitos, acabaria o dilema. E isso não vende.
O propósito
Até aqui, falamos sem conceituar o tema. Afinal, o que é propósito?
Propósito é a intenção por detrás da ação; é o sentido da sua ação; é a motivação ou o motivo pelo qual você faz as coisas. Na prática, propósito é o que te move. Ter senso de propósito significa ter clareza sobre para quê você faz as coisas. Por exemplo:
Acordo cedo todos os dias (para quê?) para levar meus filhos à escola.
Estou guardando dinheiro (para quê?) para comprar uma casa maior.
Faço horas extras (para quê?) para pagar a faculdade dos meus filhos.
O propósito já está ali. Ele é prático, move a ação e não precisa ser eterno. Pode durar um dia, um mês, um ano ou uma fase. O que importa é que ele existe. A falta de propósito que tanta gente sente não é ausência de intenção, mas falta de profundidade (ou clareza) para acessar as intenções que já tem. Ela já vive de propósitos, só não os reconhece porque eles não vêm embrulhados num grande legado.
A missão
E o que é missão?
Vamos começar pelo que ela não é: a mesma coisa que propósito.
Se o propósito responde ao para quê das suas ações, a missão responde ao por quê você faz o que faz e ao nível mais profundo da sua existência e da sua contribuição.
Missão é o porquê você faz as coisas. Há uma dimensão mais profunda e até existencial quando tratamos da missão. Mas aqui existe uma distinção importante: há missões contextuais e há uma missão de vida.
A missão contextual é aquela que se manifesta em cada papel que você desempenha nos mais variados contextos da sua vida. Por exemplo:
Como pai ou mãe, sua missão pode ser educar e proteger.
Como filho(a), sua missão pode ser cuidar e honrar.
Como profissional, sua missão pode ser servir, entregar excelência, agregar valor e contribuir.
Cada papel tem uma missão e exige de você atitudes e responsabilidades específicas.
Você não educa um filho do mesmo jeito que negocia com seu sócio. Nem cuida da sua mãe do mesmo jeito que lidera uma equipe. Não se relaciona com seu marido ou sua mulher do mesmo jeito que se relaciona com seus pais ou com seus filhos. Cada contexto pede uma missão específica e uma forma particular e coerente de responder à vida naquele lugar.
Mas há também a missão de vida.
A missão de vida é o propósito maior, o propósito dos propósitos, o propósito da sua vida. É o sentido maior e mais profundo. É o fio que organiza e dá coerência a todos os seus propósitos ao longo do tempo e da sua existência e a todas as missões contextuais. Ela atravessa (e integra) todos os seus papéis e todas as suas identidades. É o fio invisível que conecta você como pai, mãe, filho(a), irmão, irmã, amigo(a), marido, mulher, profissional etc. E, sobretudo, como ser humano único.
Ela permanece, intocável, ainda que os cenários mudem.
Na Carta #003, abordei essa dimensão mais alta da existência.
O chamado de que falei ali não tem a ver com grandiosidade nem com performance; tem a ver com verticalidade, amadurecimento e resposta interior. A missão de vida mora exatamente nesse lugar: na coragem de reconhecer o que, em você, insiste em pedir expressão e em se manifestar no mundo, e não no desejo de parecer especial.
A confusão
Confundir propósito e missão é uma das maiores armadilhas da romantização moderna promovida e estimulada pelos cocôaches da internet.
Para não cair nessa armadilha, é preciso entender a diferença prática entre os dois.
Propósito tem a ver com você: com sua sobrevivência, sua segurança, seus ideais, suas expectativas e aspirações. O propósito você cria; é uma construção ativa que responde à pergunta para quê?
Missão tem a ver com os outros: com sua contribuição ao mundo, seu senso de importância e sua necessidade de se sentir útil. A missão você descobre (ou ela te encontra); responde à pergunta por quê?
Não se trata de uma escolha, mas de um reconhecimento. Ela já estava ali, por vezes silenciada pelo barulho do cotidiano ou pela ilusão do ego, até que um dia se impõe de forma inevitável e irresistível.
A diferença é sutil, mas essencial: o para quê aponta para o objetivo, para o alvo; o por quê aponta para o sentido, para a razão de ser das coisas. Por exemplo:
Acordo cedo todos os dias (para quê?) para levar meus filhos à escola, (por quê?) porque assim passo mais tempo com eles.
Estou guardando dinheiro (para quê?) para comprar uma casa maior, (por quê?) porque assim posso dar mais conforto para minha família.
Faço horas extras (para quê?) para pagar a faculdade dos meus filhos, (por quê?) porque assim estou garantindo o futuro deles.
Perceba: o propósito move a ação; a missão dá sentido a ela. Os dois podem caminhar juntos e se tocar, mas são coisas distintas. Quando você confunde os dois, projeta sobre o propósito o peso da missão. É aí que muita gente se perde e começa a adoecer.
Na PNL Sistêmica, partimos do seguinte princípio:
O mapa não é o território
Isto é, a forma como você interpreta o mundo não é o mundo; é a sua interpretação. A romantização do propósito é um mapa. E um mapa equivocado, empobrecido e limitante. Ela faz você acreditar que só existe um tipo de território válido: o heroico, o incrível, o superlativo. Todo o resto parece perda de tempo (e de vida). Mas o território real da vida é feito de camadas: sua família, seu sustento e sua contribuição, às vezes anônima. É a sua vida acontecendo aqui e agora.
O conflito
O ser humano moderno vive dividido. Por um lado, precisa trabalhar para sobreviver. Por outro, deseja que seu trabalho tenha sentido. Quer contribuir, mas também quer ser reconhecido. Sonha com uma missão, mas precisa pagar as contas. Essa tensão é o pano de fundo de quase todas as crises de propósito que encontro.
O grande conflito existencial do ser humano moderno nasce daqui:
Propósito e missão se aplicam e coexistem em todas as áreas da nossa vida.
O propósito e a missão profissional nem sempre se conectam ou se relacionam com a nossa missão de vida.
Por que, Tamer?
Porque o propósito do trabalho é o lucro, a remuneração; e a missão do trabalhador tem a ver com sua contribuição profissional.
Por exemplo: o corretor de imóveis trabalha para ser remunerado e, consequentemente, garantir a satisfação das suas necessidades básicas; sua contribuição é realizar o sonho da casa própria dos seus clientes.
Sempre que falo deste assunto me lembro do grande e saudoso Chico Xavier. Ele foi um exemplo vivo de como essas coisas frequentemente se separam.
Chico era apenas mais um funcionário público do Ministério da Agricultura, onde trabalhou até se aposentar. Do dinheiro desse trabalho ele pagava suas contas, sustentava a si mesmo e ajudava no sustento da sua família.
Mas Chico também tinha uma missão de vida, pela qual ficou conhecido no mundo inteiro: confortar milhares de famílias por meio das suas famosas psicografias e promover o esclarecimento sobre as questões da vida e da morte - segundo o espiritismo - por meio de centenas de livros publicados. Ali, ele não ganhava dinheiro; sequer admitia tocar no assunto. Passava adiante imediatamente toda a doação que porventura recebesse. Dessa forma, dava sua imensa e inegável contribuição ao mundo.
Chico realizava sua missão de vida fora do seu ambiente profissional. Mas um não anulava o outro. O propósito possibilitou a missão e a missão deu sentido ao propósito.
Nem todo mundo descobre sua missão de vida. Muitos fatores podem impedir que isso aconteça, a começar pela falta de autoconhecimento. Mas você pode ter uma vida significativa sem nunca saber a sua missão. Pode vivê-la nos pequenos atos, na coerência silenciosa e no significado dos seus relacionamentos. O que não pode é confundir missão de vida com sua carreira, seu ofício ou seus títulos. A missão pode estar ali, mas também pode estar em outro lugar: na família, na espiritualidade, na arte e em tantos outros contextos.
Às vezes, propósito e missão caminham juntos. É o meu caso.
A integração
No dia 04 de junho de 2000, descobri a minha missão. Mas não larguei o trabalho (propósito) que pagava minhas contas. Continuei no mercado de shopping centers por mais algum tempo, enquanto me preparava para fazer do meu ofício o veículo da minha missão.
Hoje, na TAMER Treinamentos, realizo meu propósito enquanto executo minha missão: facilitar o desenvolvimento de outras pessoas, despertando o que há de melhor dentro de cada ser humano que vem a mim.
Assim, dou minha contribuição, ajudando a transformar o mundo num lugar melhor, ao qual todos queiram pertencer.
O propósito é realizado de diversas formas: houve uma época em que eu fazia clínica e atendia em consultório; depois, fui professor universitário e dei aulas em nível de graduação; depois, fui treinador comportamental e palestrante; depois, dei aulas em nível de pós-graduação. Durante um tempo, fui tudo isso ao mesmo tempo agora. Mas a missão era uma só: esclarecer; lançar luz sobre as sombras; levar clareza onde havia trevas. Um só ofício. Duas camadas.
Mas nem sempre é assim. E tudo bem. Você não precisa integrar propósito e missão para ser feliz e ter uma vida significativa. Você precisa, sim, de clareza sobre o que te move.
A metáfora
Este sou eu. Esta é a minha missão.
O mineiro (trabalhador de mina) não escolhe a montanha mais bonita. Ele escolhe a montanha que tem pedra preciosa. Ele sobe, desce, cava e quebra pedra. Remove toneladas de sujeira, de terra, de pedra bruta. Não vê glamour no processo, mas sabe que o resultado está no final, quando a pedra preciosa aparece. Custe o que custar; leve o tempo que levar.
Eu não transformo ninguém. Não sou agente de mudança da vida de ninguém, a não ser da minha.
Quanto às pessoas a quem me cabe apoiar e orientar, sou um facilitador de processos de comunicação, liderança e tomada de decisão - no sentido mais amplo, não apenas profissional, mas existencial. Você quer melhorar sua comunicação? Quer liderar a si mesmo(a) e os outros? Você toma decisões que impactam a sua vida e as vidas de outras pessoas? Isso também se aplica a você.
Eu ajudo meu aluno, minha aluna ou mentee a remover tudo que o(a) impede de melhorar a si mesmo(a) e de transformar a própria vida. Puxo do ser humano o que ele tem de melhor. A pedra preciosa que já está ali, embaixo do entulho, do condicionamento, da história que ele(a) carrega.
Não dou a pedra. Ajudo a cavar no lugar certo.
O comum
Você pode ser profundamente feliz realizando um propósito que não tem nada de épico. Trabalhar, sustentar sua família, pagar a escola dos filhos, comprar sua casa e fazer sua contribuição para uma sociedade melhor e mais justa.
Cuidado para não permitir que a romantização do propósito faça você desprezar o ordinário, o comum e transformar o que deveria ser suficiente em ausência de alguma coisa maior que você nem sabe dizer o que é. Isso seria autoenvenenamento.
Geralmente, o problema não é a falta de propósito, é a infelicidade no que se faz. Se você é infeliz, mude. Se é feliz, pare de se comparar com os heróis da mitologia.
Você não precisa deixar um legado em letras garrafais. Precisa, sim, de clareza sobre o que te move. E, às vezes, o que te move está aí no que você já faz e não valoriza porque não tem status nem holofotes.
No mais, invista em você. Para identificar seus para quês, entender seus porquês e, quem sabe, integrar propósito e missão — ou aceitar que eles podem seguir separados.
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Grande 4braço
#TamerJunto





