Salve! Aqui é o Tamer.
Março de 2001.
O dia estava lindo e o sol despontava no horizonte, enquanto eu dirigia do interior de São Paulo para o Rio de Janeiro.
Voltávamos da nossa primeira formação de Master Practitioner em PNL Sistêmica. Foram dias intensos, de muito aprendizado e mudanças internas profundas e significativas.
Enquanto conversávamos, eu disse:
- Estou me sentindo absolutamente zerado. A sensação que tenho é de que todas as questões mal resolvidas da minha vida se resolveram neste Master.
Eu me sentia leve e dirigia como se flutuasse.
Minha vida parecia estar inteira e em ordem, e eu estava em paz com minha própria história. Plenitude é a palavra que melhor descreve aquele momento.
Vinte e cinco anos depois, não me lembro de ter sentido nada parecido.
Na Carta #029: toda transformação enfrenta uma segunda-feira, escrevi sobre o que acontece depois de uma experiência transformadora como essa.
A vida
Desde que conheci a PNL Sistêmica, em junho de 2000, vivo em processo de desenvolvimento pessoal.
Eu não saberia, nem quereria que fosse diferente. Sinceramente, não sei o que seria de mim se não fosse a PNL Sistêmica. Ela me salvou duas vezes. Eu conto essa história em detalhes na Carta #024: o dia em que meu cérebro sangrou.
Nem toda mudança começa com um problema para resolver. Às vezes, a vida muda simplesmente ao nos trazer uma experiência inteiramente nova.
Foi o que aconteceu comigo três anos e meio depois daquela viagem, quando nasceu a Duda, minha filha.
A experiência da paternidade mudou radicalmente a minha vida. A sensação de que eu estava zerado acabou ali. Havia uma pessoa chegando, uma relação começando e um conjunto de demandas que eu ainda precisava aprender a atender.
Indiscutivelmente, meu nível de desenvolvimento pessoal e tudo o que havia vivido e trabalhado em mim até aquele momento me habilitavam a iniciar essa nova experiência com mais recursos do que a imensa maioria das pessoas. Mas isso não me permitia antecipar a complexidade do que significa criar, educar e preparar um ser humano para a vida.
Eu tinha muito a aprender com aquela nova fase.
Com o tempo, o filho vai crescendo e o bebê que depende dos pais para tudo vai adquirindo autonomia e um jeito particular de perceber o mundo e estar nele. Depois, passa a fazer suas próprias escolhas, às vezes muito distantes daquelas que os pais imaginam. A relação muda junto. O pai que aprende a cuidar de uma criança pequena precisará desenvolver novas competências para se relacionar com um adolescente e, mais tarde, com um adulto.
É uma verdadeira montanha-russa de experiências e emoções.
Tudo passa muito devagar e muito rápido ao mesmo tempo. É uma dinâmica difícil de explicar. Mas o amor continua ali, crescendo e amadurecendo, ocupando um lugar que não cabe dentro de você e cuja dimensão é impossível de determinar. E ali, duas pessoas diferentes, pai e filha, seguem se desenvolvendo dentro da mesma relação.
A vida é uma jornada evolutiva.
As experiências vão nos colocando diante daquilo que ainda precisamos aprender, inclusive quando chegam sob o formato de algo que queremos muito.
A conta nunca zera porque a vida continua acontecendo.
Você participa dela com os recursos que tem, aprende, muda e passa a viver novas situações que requerem capacidades e recursos que você ainda não desenvolveu.
É assim que, em algum momento, o desenvolvimento pessoal começa, mas não termina. É presente contínuo. Ele precisa acompanhar esse movimento.
Há uma frase atribuída a Luís Fernando Veríssimo que resume essa lógica:
Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas
A linearidade
Depois de um período desafiante, é natural esperar pelo descanso.
A sensação de plenitude que descrevi na introdução desta carta remete a um estado em que podemos voltar a desfrutar a vida, livres das questões que carregávamos conosco o tempo inteiro.
A partir de uma experiência assim, é muito comum que algumas pessoas comecem a imaginar uma vida em que tudo finalmente entrará em ordem, ficará bem e permanecerá assim para sempre. O trabalho de desenvolvimento pessoal ganha, na cabeça delas, status de tarefa concluída, já que elas resolveram suas pendências e acreditam estar prontas para viver numa paz contínua e eterna.
Só que não.
A vida é um organismo vivo e continua acontecendo ao longo dos seus altos e baixos, independentemente da nossa vontade.
Viver é um processo dinâmico.
A família, os relacionamentos, a carreira, a saúde e todos os nossos contextos de vida precisam funcionar minimamente bem e decisões importantes precisam ser tomadas continuamente para que isso aconteça, porque as coisas mudam o tempo todo, às vezes numa velocidade em que a gente não consegue acompanhar.
Esperar uma estabilidade definitiva desse conjunto sistêmico significa esperar que todos esses movimentos convirjam ou parem ao mesmo tempo.
Os cocôaches da internet alimentam essa expectativa quando apresentam o desenvolvimento pessoal como passagem para uma versão pronta do ser humano, permanentemente equilibrada e capaz de administrar qualquer conflito, interno ou externo. A promessa vende uma tranquilidade sem prazo de validade, como se uma grande transformação pudesse antecipar todas as experiências que ainda virão.
Já perdi as contas de quantas vezes na minha vida, quando pensei que tudo estava calmo, veio aquela onda gigantesca e tomei aquele caixote bonito que me deixou desorientado.
Até que entendi o recado.
A vida tem períodos de calma, de intensidade, de expansão e de recolhimento.
Há fases em que várias coisas se ajustam e outras em que mudanças diferentes, em contextos diferentes, chegam juntas. Tudo ao mesmo tempo agora. Esse movimento pode alterar a direção, o ritmo e as exigências do seu aprendizado.
Você pode querer uma vida mais tranquila e trabalhar seriamente para isso. Mas precisará construir essa tranquilidade internamente, dentro de um ambiente dinâmico e em expansão.
O aprendizado
Imagine um profissional que acaba de receber a promoção tão sonhada pela qual trabalhou duro durante anos. Ele é muito experiente, conhece profundamente sua atividade, é respeitado pelos colegas e assume a coordenação da equipe.
Na sua primeira reunião como líder, dois dos seus colaboradores apresentam propostas diferentes para um mesmo projeto. Ambos esperam uma decisão dele. O novo coordenador abre os arquivos e começa a examinar os detalhes técnicos, como sempre fez.
Enquanto isso, a discussão entre os dois liderados continua.
Agora, além de escolher uma das propostas, cabe ao novo líder conduzir o encontro, entender o caráter da disputa e estabelecer como e por que sua decisão será tomada. O trabalho que ele fazia tão bem passou a incluir uma dimensão relacional pela qual, até então, não respondia.
A promoção foi uma conquista. Com ela, vieram situações que exigem novas competências. Ele precisará aprender a conduzir uma equipe que reúne pessoas diferentes, com expectativas e visão de mundo próprias, e responder pelo trabalho coletivo.
Isso também faz parte da promoção que ele tanto almejou.
Uma conquista pode nos colocar diante de uma aprendizagem tão exigente quanto uma adversidade. Querer muito uma experiência não nos isenta de pagar o preço dessa conquista quando ela finalmente estiver fazendo parte da nossa vida.
Minha filha chegou três anos e meio depois daquele Master. A paternidade tinha suas próprias questões e me colocava diante de aprendizagens específicas que até então eu desconhecia.
O mesmo acontece quando alguém assume uma responsabilidade que nunca teve ou está diante de uma circunstância com a qual nunca lidou.
E precisamos estar preparados para isso.
Por que, Tamer?
Porque a vida é um processo sistêmico que acontece em relação a pessoas e circunstâncias que continuam mudando, com ou sem a nossa autorização.
A PNL Sistêmica trabalha com um princípio que esclarece essa dinâmica:
Os processos que ocorrem no indivíduo, e entre ele e seu ambiente, formam um conjunto de sistemas e subsistemas interagindo entre si e influenciando-se mutuamente
Você participa de relações nas quais suas escolhas interferem na vida do outro, e as escolhas do outro interferem em você. Uma mudança importante numa dessas relações pode modificar suas prioridades, exigir outra forma de comunicação e colocar em questão decisões que, até então, pareciam bem definidas.
Na Carta #010: só autoconhecimento é pouco, desenvolvo a relação entre compreender seus programas neurolinguísticos e aprender a funcionar melhor no mundo. Essa relação está (ou deveria estar) em movimento contínuo porque você e seus contextos de interação estão vivos e em constante mudança.
Um repertório formado exclusivamente pelo que você já viveu pode se tornar insuficiente diante do que a vida passa a te apresentar aqui e agora.
Seu desenvolvimento precisa incluir a capacidade de reconhecer essa nova demanda e aprender a responder assertivamente a ela.
A evolução
A novidade pode aparecer de repente e de forma inesperada numa pergunta que a vida faz e você ainda não sabe responder, numa responsabilidade cujo tamanho parece grande demais para você ou numa relação que exige uma flexibilidade que você nunca precisou desenvolver.
Ou em contextos mais sérios e desafiantes como um problema de saúde, a perda de uma pessoa amada, o término de um relacionamento, o desemprego depois dos quarenta ou a falência financeira repentina.
Todos os eventos da nossa vida trazem consigo uma comunicação e uma oportunidade de aprendizado. Exploro esse assunto na Carta #002: Tudo é comunicação. Comunicação é tudo. É tudo comunicação.
No exemplo da promoção, nosso novo coordenador terá que descobrir como as pessoas daquela equipe trabalham, como se comunicam, o que esperam da sua atuação e como respondem às decisões dele. Essas respostas trarão informações que ele provavelmente não tinha antes de ocupar o cargo.
Ele pode conhecer os fundamentos da liderança, preparar-se e procurar orientação. Ainda assim, precisará aprender a liderar aquelas pessoas, naquele contexto e dentro daquelas condições.
O exercício dinâmico da função vai mostrando onde seu repertório atende às demandas e onde precisa ser ampliado.
A aprendizagem modifica sua forma de agir. Essa mudança interfere no funcionamento da equipe, que passa a lhe apresentar outras possibilidades e outras exigências. O contexto no qual ele se desenvolve também se modifica pela participação dele.
É nesse movimento que o crescimento acontece.
A jornada evolutiva se realiza na relação entre aquilo que a vida apresenta e o que você faz com essa experiência. O acontecimento oferece matéria-prima; aprender exige consciência, vontade e participação ativa.
Uma determinada circunstância pode pedir que você reveja suas certezas e posicionamentos, adquira uma nova habilidade, reconheça um limite ou mude a forma de se relacionar.
Algumas dessas aprendizagens são especialmente desconfortáveis porque nos forçam a admitir que uma resposta muito familiar já não atende ao contexto atual. Isso é bastante desafiante. É como se tivéssemos que recomeçar do zero.
Diante de uma nova experiência, você também pode descobrir que quer viver coisas diferentes.
No caso do coordenador, por exemplo, o exercício da liderança pode ajudá-lo a concluir que realmente quer continuar nessa função e se qualificar para ela, ou que prefere um percurso profissional diferente.
Essa compreensão também tem imenso valor, porque passa a orientar escolhas que antes estavam apoiadas apenas numa ideia do que seria o novo cargo.
Conheço muitos CEOs de empresas que trocaram a carreira executiva por uma vida, digamos, mais leve e com mais sentido.
Evoluir inclui esse trabalho de se reconhecer (ou não) nas situações que a vida vai apresentando e, se for o caso, navegar numa direção diferente.
O percurso
Quando digo que a conta nunca zera, estou falando da continuidade dessas aprendizagens. Uma questão pode ser resolvida, um objetivo pode ser atingido e uma fase pode ser concluída.
Você tem todo o direito de desfrutar disso.
Aquela viagem de março de 2001 ocupa um lugar especial na minha memória por causa do estado de recursos em que eu me encontrava.
A experiência de plenitude tem um imenso valor.
Na verdade, se você me perguntar qual é a grande meta da vida, não é felicidade tampouco sucesso, como a imensa maioria das pessoas acredita. É plenitude. Ela pode (e deve) ser vivida nesta vida, mas é para poucos, porque não é uma conquista simples. Requer disciplina, comprometimento com a própria evolução e o exercício consciente da vontade. Poucas pessoas conseguem reunir essas qualidades frente aos imensos e inúmeros desafios da vida.
Enquanto segue sua própria jornada, cada pessoa precisa encontrar os recursos de que necessita para superar esses desafios.
Não existe um único estado que atenda às necessidades de todas as pessoas, nem uma palavra universal capaz de nomeá-lo. Segundo a PNL Sistêmica, cada um interpreta suas experiências a partir do próprio mapa de mundo. Por exemplo, no meu mapa, serenidade tem a ver com passividade e conformismo. Para mim, alinhamento e paz de espírito são palavras que traduzem melhor o estado que busco em momentos de crise.
Você pode dar outro nome aos estados de recursos que fazem mais sentido para você.
O importante é saber que não existe certo ou errado e que esses estados não precisam ser o mesmo em todas as fases da sua vida. Precisam apenas ser suficientes para que você continue se abrindo ao que a vida te apresenta, enquanto mantém o ânimo para seguir respondendo adequadamente aos acontecimentos.
A qualidade da nossa vida melhora quando estamos preparados para as mudanças.
O ritmo da vida varia. Às vezes viveremos períodos de maior tranquilidade enquanto, em outros, precisaremos trabalhar melhor a nós mesmos para lidar com certas turbulências.
A expectativa de uma vida perfeitamente linear faz com que seja muito desafiante reconhecer o valor dessas diferentes fases.
Você pode desfrutar do que está bem e dedicar atenção ao que precisa de desenvolvimento, sem esperar que todos os aspectos da sua existência convirjam para um mesmo ponto ao mesmo tempo.
A continuidade
Cada fase pede uma leitura cuidadosa do presente.
Uma questão antiga pode ter encontrado solução, enquanto uma experiência atual solicita outras capacidades e novas respostas. A atenção precisa se voltar para o que está acontecendo agora, para as pessoas envolvidas e para a participação que cabe a você nesse contexto.
Em algumas fases, um apoio profissional pode ser especialmente útil para trazer clareza, ampliar seus recursos internos e trabalhar as competências necessárias para cada contexto da sua vida.
Na Carta #031: a armadilha da autossuficiência, examino as resistências que dificultam a procura por ajuda profissional. A disposição de continuar se desenvolvendo também inclui reconhecer quando uma nova experiência merece acompanhamento, inclusive numa fase boa, em que você quer cuidar do que está construindo.
Ao mesmo tempo, existe uma participação pessoal que nenhum profissional pode assumir em seu lugar. O que foi trabalhado e conquistado precisa encontrar espaço nas suas escolhas, decisões e na forma como você se relaciona com as pessoas.
A cada etapa concluída, você pode desfrutar dos resultados.
Quando a vida apresentar outra demanda, precisará dedicar a ela a atenção e o trabalho correspondentes. O desenvolvimento pessoal acompanha esse movimento com a intensidade, o formato e os recursos necessários a cada fase.
A mentoria
A Mentoria Ágora é um processo de PNL Sistêmica aplicada à comunicação, liderança e tomada de decisão para ajudar você a enxergar com mais clareza os padrões que governam sua forma de funcionar.
Ágora era um lugar onde se negociavam ideias, valores e destinos na Grécia antiga. Para mim, a mentoria é uma ágora: um espaço entre o que você vive hoje e o que podemos construir a partir daí.
Você que está vivendo uma nova fase, assumindo responsabilidades diferentes ou percebendo que precisa ampliar seus recursos para seu contexto atual de vida pode contar com meu apoio.
O objetivo é compreender o que essa fase está exigindo de você e trabalhar sua forma de pensar, agir e se relacionar dentro dela.
Para conversar comigo sobre sua participação, clique aqui e preencha o formulário de interesse.
Grande 4braço
#TamerJunto
Circule
Esta carta tem cinco complementos:
Provotalks: dois novos ângulos em áudio, disponíveis na plataforma de sua preferência na próxima quinta-feira e na quinta-feira seguinte, às 7h59;
#DicaDoTamer: duas dicas explicadas para aplicação imediata, disponíveis nas Notas do Substack na próxima sexta-feira e na sexta-feira seguinte, às 12h59;
Provocrônica: uma história real que você receberá diretamente no seu e-mail, na próxima terça-feira, às 7h59.








