Provocrônica #008: as contas
Ele chegou eufórico, com um sorriso largo, e me disse:
— Pedi demissão.
— Por quê? — perguntei.
— Eu não estava feliz.
Apertei os lábios e olhei fixamente nos seus olhos por alguns instantes.
Ele era dessas pessoas que não param em lugar nenhum. Morava sozinho e tinha dois filhos. Parecia leve, aliviado, como quem tira um peso das costas.
— Você sabe como vai pagar as contas deste mês? — perguntei.
Ele me olhou surpreso e recuou até atingir o encosto da cadeira, como se tivesse levado um choque.
— Ainda não.
— E o aluguel? — continuei.
Silêncio.
— E o mercado? E as contas?
— E o plano de saúde? E a escola dos filhos? — insisti.
Outro silêncio.
— Você está feliz agora?
A leveza desapareceu e a tensão tomou conta do seu corpo. Afinal, fetiche não paga boletos.
Ele não respondeu. Não disse mais nada. Não precisava.
Provocrônicas
Histórias provocacionais acumuladas em quase 25 anos desenvolvendo pessoas.
Este caso completa a Provocatória, Carta #023.
Circule
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