Ele chegou eufórico, com um sorriso largo, e me disse:
— Pedi demissão.
— Por quê? — perguntei.
— Eu não estava feliz.
Apertei os lábios e olhei fixamente nos seus olhos por alguns instantes.
Ele era dessas pessoas que não param em lugar nenhum. Morava sozinho e tinha dois filhos. Parecia leve, aliviado, como quem tira um peso das costas.
— Você sabe como vai pagar as contas deste mês? — perguntei.
Ele me olhou surpreso e recuou até atingir o encosto da cadeira, como se tivesse levado um choque.
— Ainda não.
— E o aluguel? — continuei.
Silêncio.
— E o mercado? E as contas?
— E o plano de saúde? E a escola dos filhos? — insisti.
Outro silêncio.
— Você está feliz agora?
A leveza desapareceu e a tensão tomou conta do seu corpo. Afinal, fetiche não paga boletos.
Ele não respondeu. Não disse mais nada. Não precisava.
Provocrônicas
Histórias reais e provocacionais acumuladas em quase 25 anos desenvolvendo pessoas.
Este caso complementa a Provocatória, Carta #023: Não estou feliz. E agora?
Circule
Conto com você para fazer este trabalho circular. Vivemos um momento de dispersão e superficialidade, por isso um acervo como este merece chegar a novas mentes e corações e ajudar ainda mais pessoas.
Por favor, compartilhe. Hoje, mais do que nunca, o que tem valor precisa encontrar caminho.




