Carta #023: Não estou feliz. E agora?
A diferença entre o limite real e a fuga da realidade
Salve! Aqui é o Tamer.
Cheguei às 10h, como de costume. Eu era o mentor da principal liderança da empresa. Assim que cheguei, senti a falta de um dos sócios e perguntei:
— Cadê Fudêncio?
Fudêncio fazia a coordenação de todo o time. Seu trabalho tinha importância crucial porque era ele quem treinava os colaboradores que lidavam diretamente com o público e ajustava as velas do barco quando necessário.
— Fudêncio foi embora. Foi trabalhar na concorrência como empregado comum, ganhando menos de um salário mínimo.
— E qual foi a justificativa dele? — perguntei.
Não sei. Ele simplesmente me procurou e disse:
— Não estou feliz.
E foi embora. Simples assim.
Quando ouvi a frase “Não estou feliz”, tremi. Eu já tinha ouvido isso antes, em contexto semelhante.
Esse homem adulto, chefe de família, abriu mão da sua parte na sociedade e de uma posição de destaque e liderança, que muitos lá almejam, num ambiente saudável, para voltar a ser empregado em outro lugar, cujo clima interno ele desconhecia, ganhando muito menos e sem grandes perspectivas.
E não se tratava de uma mudança estratégica de carreira, não havia ali um projeto de vida ou um plano de crescimento, nem um propósito superior. Havia apenas uma explicação emocional curta o bastante para parecer suficiente.
Mas não era. Pelo menos para mim.
Foi aí que identifiquei um padrão.
A frase
Reconhecer a própria infelicidade é um ato de autenticidade e lucidez.
“Não estou feliz” é uma sentença legítima, honesta e, frequentemente, necessária. O problema é quando ela começa a ser utilizada como argumento para fugir do desconforto e abandonar os processos no meio do caminho, incluindo vínculos afetivos.
Esta frase pode estar escondendo alguns sintomas típicos do nosso tempo: pouca resistência à frustração, imaturidade para lidar com novos desafios ou falta de inteligência emocional para gerenciar a pressão e o estresse comuns à vida adulta.
A pessoa diz: “não estou feliz”, como se isso, por si só, fosse o suficiente para encerrar o assunto. Só que não. Normalmente, abre uma discussão mais tensa e mais profunda sobre o que ela entende por felicidade, que desconfortos é capaz de suportar, o que ela espera da vida, que preço está disposta a pagar para chegar lá e que responsabilidades consegue assumir quando a vida começa a frustrar suas expectativas.
A PNL Sistêmica tem um princípio que ajuda a esclarecer essa questão:
O sintoma — físico, emocional ou psicológico — é uma comunicação de como se está em relação ao mundo
A felicidade
Na Carta #021, falei sobre as diferenças entre missão e propósito. Se esses temas tocam em você de alguma forma ou já foram (ou ainda são) motivo de angústia ou sofrimento, sugiro que leia.
Como se já não bastasse a romantização do propósito, berrada aos quatro cantos pelos famigerados cocôaches da internet, vivemos tempos estranhos em que a felicidade tem sido transformada em critério absoluto para qualquer decisão, da mais simples à mais importante.
Se não estou feliz no trabalho, saio; se não estou feliz no relacionamento, termino; se não estou feliz com a rotina, abandono; se não estou feliz com a tarefa, terceirizo; se não estou feliz com as responsabilidades, abro mão. Se não estou feliz com a vida, desisto.
A princípio, essa lógica parece libertadora, mas pode revelar - e também produzir - gente frágil, instável e dependente de estados emocionais favoráveis para fazer o que precisa ser feito.
É como se a vida precisasse oferecer pequenas injeções constantes de dopamina para que a pessoa continue funcionando. Sem entusiasmo, validação, prazer imediato ou motivação emocional, tudo perde o sentido.
Pessoas maduras nunca dependeram disso. Construção, compromisso, disciplina, responsabilidade e estabilidade exigem a capacidade de agir mesmo sem recompensa emocional imediata.
Como viciados emocionais, muitos já não conseguem sustentar a própria vida sem doses constantes de estímulo ou excitação psicológica. Precisam de pequenas descargas emocionais para tolerar responsabilidades básicas. O problema é que a realidade não funciona na velocidade da dopamina. Conquistas sólidas envolvem repetição, tédio e boas doses de frustração.
Estamos diante de uma geração que vem sendo treinada para dar errado, para confundir tédio com fracasso e desconforto momentâneo com infelicidade. E isso acaba sendo percebido como um sinal de que aquilo precisa ser abandonado. Como uma criança que se cansou da brincadeira e larga o brinquedo na sala.
Felicidade virou uma espécie de selo de validação da vida. Se estou feliz, estou no caminho certo. Se não estou feliz, alguma coisa está errada. E, se algo está errado, alguém precisa mudar: o cenário, o trabalho, o parceiro, a empresa, a vida.
Às vezes precisa mesmo. Mas nem sempre. Pode ser que quem precise mudar seja você. Já pensou nisso?
Claro, há desconfortos que apontam para uma mudança necessária; há outros que apontam para capacidades ou competências que vêm sendo ignoradas e precisam ser desenvolvidas. Confundi-los é uma das formas mais comuns de destruir oportunidades, relacionamentos e outros processos que poderiam fazer você amadurecer.
Nem toda infelicidade é sinal de que você está no lugar errado. Às vezes, ela apenas está mostrando que você ainda não entendeu a posição que ocupa na sua vida hoje.
A frustração
O ser humano moderno vem perdendo a capacidade de se frustrar. Cada vez mais.
Não estou me referindo à humilhação, à violência, ao abuso, ao assédio ou ao sofrimento crônico facilmente observáveis em ambientes tóxicos e destrutivos. Estou falando da frustração comum, ordinária, inevitável, que acompanha qualquer realização humana minimamente séria. Por vezes, o trabalho frustra; a empresa frustra; o casamento frustra; filhos, então, nem se fale: é uma frustração para cada um. Por dia.
O próprio desenvolvimento pessoal por vezes é frustrante, porque em algum momento você descobre que não basta se entender. Você precisa se tornar um ser humano minimamente viável, precisa aprender a funcionar bem na vida. E isso dá trabalho.
Para entender como classifico um processo completo de desenvolvimento pessoal, leia a Carta #010.
E a imensa maioria das pessoas não quer ter trabalho. Por isso, os cocôaches da internet ficaram ricos vendendo promessas fáceis e rápidas, como num passe de mágica.
A pessoa quer o resultado de uma vida amadurecida, mas não quer passar pelo vale do amadurecimento; quer clareza, mas não quer encarar a própria sombra; quer autonomia, mas não quer pagar o preço emocional da autorresponsabilidade. Então ela arruma uma frase de efeito:
- Não estou feliz.
E vai embora.
O trabalho
Na Carta #021, mostrei que muita gente despreza um trabalho comum porque ele não parece épico, não tem holofote e não produz a sensação de estar salvando o mundo.
Agora, quero olhar para outro fenômeno igualmente importante: o fetiche da felicidade no trabalho.
Existe uma fantasia muito perigosa da nossa época: a de que o trabalho certo é aquele em que você se sente feliz, inspirado(a), reconhecido(a), motivado(a) e alinhado(a) o tempo todo. Isso é uma ilusão. Um delírio com crachá.
Todo trabalho tem partes chatas, repetitivas, burocráticas, ingratas, solitárias e invisíveis. Todo ofício tem um subsolo. Você pode amar profundamente o que faz e ainda assim precisar realizar tarefas das quais não gosta. Você pode estar no lugar certo e passar por dias ruins, conversas difíceis, cobranças incômodas, metas apertadas e responsabilidades que pesam.
E tem gente difícil também. E você precisa aprender a lidar com esse tipo de gente. Até porque, cá pra nós, essa pessoa pode ser você.
A PNL Sistêmica tem um princípio muito importante quando se trata da convivência em grupos:
Sua flexibilidade precisa ser proporcional à complexidade do seu ambiente
Isso significa que, se no seu trabalho você lida com uma única pessoa além de você, sua flexibilidade deve ser multiplicada por dois; se lida com mais dez pessoas, multiplique por dez; se lida com cem, multiplique por cem. E vai multiplicando, à medida que o contexto se torna cada vez mais complexo.
Por que, Tamer?
Porque cada pessoa é um universo particular, com suas crenças, valores, história de vida, memórias e expectativas únicas. Enfim, com sua visão de mundo única.
Se você é gestor(a) e ocupa uma posição de liderança, ela depende disso. Este princípio se aplica especialmente a você.
Se você é liderado e almeja crescer na carreira, precisa se autoliderar. Este princípio também se aplica a você.
Relacionamentos são sistemas. E é impossível isolar uma parte do sistema do seu todo. Todas elas exercem influência recíproca.
Um problema com um colaborador impacta toda a equipe. Um desequilíbrio emocional no marido ou na mulher impacta o casal e os filhos e pode desestruturar a família.
No início dos anos 2000, quando fui professor na Universidade Candido Mendes (UCAM) — Campus Centro, me lembro de chamar a atenção de um aluno por causa do uso de celular em sala de aula. O queridão resolveu atender a um telefonema, enquanto eu explicava a matéria. Embora o telefonema dele estivesse distraindo a atenção e prejudicando a compreensão da turma, o impacto foi sentido por todos, como se tivessem sido advertidos junto com ele.
Ali, aprendi na prática este princípio básico da PNL Sistêmica aplicado às relações humanas.
Aprendi, também, que a vida em grupo exige muito mais do que competência técnica.
Trabalho há quase 25 anos desenvolvendo pessoas. Este é meu ofício, meu propósito profissional e o veículo da minha missão.
Ainda assim, faço coisas das quais não gosto. Muitas. Respondo mensagens que não quero, tomo decisões que preferia não tomar, lido com bastidores que ninguém vê, enfrento burocracias, ajustes, erros, retrabalho e tarefas que não têm nenhum glamour.
O fato de uma parte do meu trabalho não me fazer feliz não significa que ele me faz infeliz. Significa apenas que ele também tem atrito, tem fricção.
O trabalho não existe para te colocar em permanente estado de felicidade. Como todas as outras áreas da sua vida, para além da finalidade prática, ele existe para despertar e desenvolver em você capacidades que o conforto jamais desenvolveria.
Lembre-se: a vida é uma jornada evolutiva.
Quando alguém abandona um trabalho digno, promissor e em plena expansão apenas porque “não está feliz”, sem antes fazer uma investigação séria e profunda sobre o que verdadeiramente está acontecendo, sem separar cansaço, desconforto, frustração e tédio de desalinhamento, pode estar trocando seis por meia-dúzia. Ou, na pior das hipóteses, criando um problema maior.
Para entender como os significados que atribuímos às coisas podem nos mover ou nos paralisar, leia a Carta #020.
Os relacionamentos
O mesmo fetiche se aplica aos relacionamentos.
Nunca se falou tanto em amor, conexão, reciprocidade, compatibilidade, presença, parceria, responsabilidade afetiva e construção saudável de vínculos.
Ao mesmo tempo, nunca vi tanta gente incapaz de manter uma relação, com todos os desafios em que isso implica. No primeiro sinal de crise, a coisa desanda.
A pessoa se apaixona pela possibilidade: o shape, a descoberta, o frio na barriga, a química, o desejo, o encantamento, a mensagem respondida na hora, a esperança de que, finalmente, alguém vai preencher seu vazio, compreender suas dores e confirmar seu valor.
Só que, em algum momento, chega a realidade: os hábitos, as manias, as contradições, as diferenças, os desencontros, as expectativas frustradas, as questões mal resolvidas, a rotina, as contas, os dias ruins e, principalmente, aquela parte do outro que não cabe na fantasia que você criou.
Quando a fantasia encontra a pessoa real, muita gente conclui que o amor acabou. Mas nem sempre. Na maioria das vezes, o que acabou foi a anestesia do início.
O começo de uma relação costuma anestesiar a nossa percepção. A paixão condiciona o olhar, seleciona os sinais, exagera virtudes, minimiza defeitos e incompatibilidades e nos faz acreditar que encontramos alguém pronto para ocupar o centro da nossa carência.
Mas ninguém suporta, por muito tempo, o papel que a nossa fantasia projetou. Uma hora, a pessoa real aparece e é aí que começa o relacionamento de verdade.
Uma vida a dois demanda amor, claro. Demanda alegria, afinidade, admiração e tantos outros pré-requisitos, mas também demanda a capacidade, a vontade e a disposição de construir uma vida comum.
E tem gente que não quer um relacionamento, quer uma experiência emocional constante de prazer e validação. Quando isso não acontece, entende que é o fim de um ciclo e vai embora.
A geração
Estamos diante de uma marca cultural importante: uma geração cada vez menos preparada para a vida como ela é.
E isso não tem a ver com idade cronológica, tem a ver com maturidade. Existem jovens maduros e adultos infantilizados: gente com cinquenta anos que ainda reage à frustração como se o mundo tivesse a obrigação de se organizar ao redor do seu conforto emocional.
Essa geração não foi treinada para ficar, foi treinada para trocar.
Desistir às vezes é necessário, mas, quando vira padrão, torna-se um problema estrutural, um jeito disfuncional de ser e existir.
Não adianta mudar de emprego, de marido, de mulher, de círculo social, de cidade ou de país se você vai junto e continua repetindo os mesmos padrões automáticos e inconscientes.
Mudar de cenário não resolverá o problema, se você não mudar a forma como funciona.
No máximo, dará ao seu velho padrão um novo endereço.
A maturidade
Entre outras coisas, maturidade significa desenvolver a capacidade de fazer as perguntas certas, em vez de buscar respostas prontas.
Antes de afirmar “não estou feliz”, talvez você precise se perguntar:
- Como especificamente me sinto infeliz?
- O que especificamente não está funcionando?
- Minha decisão nasce da consciência ou do impulso de fugir daquilo que tenho evitado enxergar e transformar em mim?
O problema do “não estou feliz” é que ele pode ser verdadeiro e insuficiente ao mesmo tempo. Verdadeiro porque descreve um estado interno real e legítimo. Insuficiente porque não explica a estrutura do problema, não separa o sintoma da causa e, portanto, não indica um caminho para a solução.
Assim como, na Carta #021, afirmei que não falta propósito, falta clareza, aqui, eu diria algo parecido: talvez não te falte felicidade, te falte maturidade para compreender o que sua infelicidade está querendo te mostrar.
O critério
Então, como saber se é hora de ficar ou ir embora?
Não existe resposta pronta. Desconfie sempre que alguém te oferecer uma.
Há momentos em que ficar é a decisão mais madura e há momentos em que sair é a decisão mais acertada. O discernimento está em perceber se você está diante de um limite real ou de uma frustração que precisa ser superada.
Um limite verdadeiro costuma cobrar sua saúde, sua dignidade, sua integridade, sua lucidez e sua paz de espírito. Permanecer apesar disso significaria autoabandono.
Uma frustração que requer superação costuma cobrar humildade, disciplina, paciência, consistência e aprendizagem. Quando você foge dela, deixa de crescer e fica estagnado(a) no mesmo lugar de sempre.
Sair pode significar coragem. Ficar, também.
O que define a qualidade da sua decisão não é o movimento em si, mas o nível de consciência a partir do qual ele acontece.
Não posso afirmar que Fudêncio fez a escolha errada. Não tenho todas as informações: não conheço o que ele sentia, vivia, pensava ou carregava. Mas conheço o padrão por detrás daquela frase. E, com base na minha experiência, desconfio, com grande chance de acerto, que sim, ele errou.
O tempo dirá.
Porque, se você não aprende a diferenciar infelicidade de desconforto, frustração e coisas desagradáveis acontecendo, a vida adulta pode se tornar insuportável (ou inviável).
No mais, invista no seu autoconhecimento e no seu autodesenvolvimento. Invista em você.
Mais do que importante, é necessário, é vital investigar seus mapas internos, nomear suas emoções, reconhecer seus padrões e tomar decisões com mais clareza, especialmente quando o impulso de ir embora parece mais forte do que a intenção de compreender o que está acontecendo agora.
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#TamerJunto
Os complementos
Além da Provocrônica, que você receberá diretamente no seu e-mail, esta carta tem outro complemento: o Provotalks, um novo viés em áudio que estará disponível na plataforma de sua preferência na próxima quinta-feira, às 7h59.
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