Eu estava de plantão com um colega quando ele soube que eu fazia formação em psicanálise:
- Tamer, fiz terapia durante um tempo. Eu entrava no consultório, deitava no divã, falava por quase uma hora e o psicanalista não dizia nada. No fim da sessão, assinava o cheque e entregava a ele. Até que um dia, pensei: para falar no ouvido de alguém, falo no ouvido da minha mãe. Pelo menos é de graça.
Foi a primeira vez que recebi esse tipo de queixa. Depois que comecei a trabalhar com desenvolvimento humano, ela se tornou muito frequente.
Eu ri e respondi:
- O silêncio é uma ferramenta psicanalítica importante. O psicanalista só fala o necessário; às vezes, nem fala. Não se trata de uma postura passiva, mas de uma escuta ativa e técnica, que abre espaço para a livre associação do paciente e a emergência do inconsciente.
- O profissional não te explicou isso? - perguntei.
Ele me olhou surpreso e respondeu:
— Não. Passei aquele tempo todo imaginando que era falta de interesse e que ele não tinha nada para me dizer. Achei que ia ficar falando no vácuo a vida inteira.
- O paciente deve ser informado sobre como as coisas funcionam, antes de assinar o primeiro cheque - concluí.
Provocrônicas
Histórias reais e provocacionais acumuladas em quase 25 anos desenvolvendo pessoas.
Este caso complementa a Provocatória, Carta #031: a armadilha da autossuficiência.
Circule
Conto com você para fazer este trabalho circular. Vivemos um momento de dispersão e superficialidade, por isso um acervo como este merece chegar a novas mentes e corações e ajudar ainda mais pessoas.
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