Carta #022: a irmã que chegou fora do tempo
A escolha de acolher em vez de julgar
Salve! Aqui é o Tamer.
Domingo, 03 de novembro de 2024, 10h55. Um fim de semana comum, como outro qualquer. Estamos em casa, eu e a Raquel, minha mulher. Eu acabo de sair do banho. Toca a campainha. Vou atender, sem imaginar o que me espera do outro lado do portão.
Há momentos na vida que chegam sem aviso prévio, como um vento inesperado, sacudindo tudo e trazendo consigo algo completamente novo e transformador.
Ela estava ali, bem na minha frente. Uma mulher que eu nunca tinha visto antes, mas que parece comigo. Segundo a Raquel, parece ainda mais com meu irmão mais novo.
Nessa altura da minha vida, o improvável aconteceu: descobri que tenho outra irmã.
O encontro
Na Carta #021, mencionei (propositalmente) aquela que era, até então, minha única irmã, Bianca. Foi ela quem me ligou em maio de 2000 e me empurrou para aquele treinamento que transformou a minha vida.
Seria impossível dimensionar a importância dela na minha vida. Se fosse só por isso, já teria sido decisiva.
O que eu não disse é que, 24 anos depois, descobriria que tenho outra irmã. Mais velha. Fruto de um relacionamento anterior do meu pai. Um capítulo da vida dele que permaneceu guardado até então.
Ela chegou aqui em casa de surpresa, numa orquestração com a Raquel.
Tudo começou quando ela entrou em contato comigo pelo WhatsApp, depois de uma busca de aproximadamente dois anos nas redes sociais.
A história é simples e complexa ao mesmo tempo. Antes de se casar com minha mãe, meu pai teve um relacionamento do qual nasceu essa irmã. Uma filha que ele nunca assumiu, embora sempre soubesse da existência dela.
Depois de conversar longamente com ela por telefone, meu primeiro sentimento foi de indignação. Em primeiro lugar, por ela ter crescido sem o pai e sem o nome dele; segundo, porque perdemos uma vida inteira juntos; e, por último, porque ela foi privada de viver muitas coisas e de conhecer muita gente que eu amei, e que já se foi.
Minha indignação era justa e legítima; mas estava longe de ser a única resposta emocional possível.
A escolha
Histórias como essa costumam vir acompanhadas de um peso: o peso do que não foi feito, do que não foi dito, do que não foi vivido e do que poderia ter sido. O peso das perguntas sem resposta:
- Por que foi assim?
- Por que teve que ser assim?
O peso do julgamento.
Porque o julgamento, ainda que legítimo, raramente repara alguma coisa; quase sempre só drena a nossa energia e prolonga a dor.
Mas eu escolhi seguir um caminho diferente. Em vez de ficar olhando para o passado, decidi olhar para o agora e acolher esta irmã por inteiro, sem reservas, sem julgar a nossa história.
Recebê-la foi um momento de ressignificação. O que poderia ter sido motivo de desconforto ou divisão se transformou num espaço de acolhimento e empatia, onde cada um de nós pôde olhar para isso tudo de um jeito novo e diferente. Além disso, agora a família cresceu; ganhamos uma nova integrante.
Para entender a importância dos significados que damos às nossas experiências, leia a Carta #020.
O acolhimento foi recíproco, porque, obviamente, ela poderia ter escolhido nunca me procurar ou ter mantido um contato, digamos, apenas burocrático.
Poderia, simplesmente, ter deixado o passado lá, como se não houvesse. Isso seria perfeitamente compreensível.
Na prática, isso significa que ela nos acolheu primeiro.
O não-julgamento
A PNL Sistêmica me ensinou a não julgar.
Ao longo das minhas cartas, já citei várias vezes o princípio norteador mais importante para qualquer pessoa que trata a PNL Sistêmica com seriedade e como filosofia de vida:
O mapa não é o território
Este pressuposto impactou a minha mente e tocou o meu coração de forma tão profunda que me livrou imediatamente de dois problemas graves que limitavam bastante a minha vida:
Viver tentando me enquadrar nas expectativas dos outros.
Viver projetando sobre os outros as minhas expectativas.
Isso trouxe uma nova luz para a minha vida, além de realinhar minhas emoções. Desde então, venho exercitando o não-julgamento.
Esse encontro (ou reencontro) me ensinou muito sobre o poder da aceitação. Compreendi que, muitas vezes, as escolhas que julgamos equivocadas (ou erradas) têm raízes em experiências, histórias de vida, memórias, circunstâncias e emoções que desconhecemos completamente.
Mas a vida sempre nos dá a oportunidade de ressignificar e transformar.
A PNL Sistêmica me ensinou também a separar a pessoa do comportamento:
Todo comportamento tem uma intenção positiva
Sim, eu acredito nisso com todas as minhas forças. O problema é que, na imensa maioria das vezes, há uma enorme distância entre o que a gente quer (intenção positiva) e o que a gente faz (comportamento) para conseguir o que quer. É aí que a gente se perde e a coisa desanda. A falta de clareza sobre os nossos propósitos nos leva a lugares muito distantes daqueles aonde verdadeiramente queremos chegar.
Para entender melhor sobre propósito, leia a Carta #021.
Assim, embora seja muito desafiante para mim, decidi acolher meu pai sem julgamentos.
Nós nunca conversamos sobre este assunto. Eu nunca quis saber a versão dele.
Por que, Tamer?
Porque corremos um sério risco de azedar a nossa relação. Sinceramente, não há nada que ele possa me dizer que explique ou tampouco justifique o comportamento dele. Absolutamente nada.
Isso seria pouco inteligente, especialmente nesse momento da vida. Dependendo do azedume, talvez não tenhamos tempo para reverter.
Tudo o que sei sobre essa história toda foi por intermédio da minha nova irmã.
A família
Felizmente, meus dois outros irmãos e também meu pai, aos 79 anos, a acolheram.
A família cresceu. Agora somos quatro irmãos, unidos por uma história que começou de forma inesperada e tardia, mas que trouxe à tona o valor do acolhimento incondicional. Ao nos abrirmos para essa experiência, deixamos de lado o que poderia nos dividir e nos permitimos ser tocados pelo que nos une. Eu sempre digo:
- O que nos une é muito maior do que o que nos separa.
E, assim, essa nova irmã se tornou parte integrante da minha vida, como se sempre estivesse ali, apenas esperando o momento certo para chegar e ser acolhida.
De lá para cá, estivemos juntos algumas vezes e é sempre muito bom quando a gente se encontra. A gente se fala sempre. Participei da festa de aniversário dos 60 anos dela, acompanhado da Raquel, da Duda e do meu genro. Conheci minhas sobrinhas, filhas dela, e meus sobrinhos-netos, filhos das filhas dela. Que loucura! Seria impossível medir e expressar a intensidade da minha emoção.
Enfim… Como diz a Raquel:
- Nós ganhamos a Sandra.
Pensa numa pessoa gente boa, lutadora, trabalhadora e com uma história de vida incrível. Sim. E ela existe como se sempre tivesse existido.
E o que sinto por ela é o mesmo que sinto pela irmã mais nova, com quem tenho a história de uma vida inteira. Como se o amor não precisasse de enredo para existir, como se não tivesse que aprender a ser. Como se sempre estivesse ali, esperando para germinar.
Talvez você esteja se perguntando:
- Mas vocês não vão fazer um exame de DNA?
Eu te devolvo a pergunta:
- Por quê? Para quê?
Até nisso eu e minha nova irmã concordamos.
A Raquel diz que é ter trabalho e gastar dinheiro à toa; que é só olhar pra gente que a dúvida desaparece.
Para entender melhor as diferenças entre por quê e para quê, leia a Carta #021.
O recomeço
Estou compartilhando essa história motivado por algumas razões:
Prestar um reconhecimento público à minha irmã mais nova, porque, por meio de um único gesto - uma simples indicação -, ela trouxe um novo e superior sentido para a minha vida, transformando-a para sempre, de uma forma que, tenho certeza, não consegue sequer imaginar.
Fazer uma homenagem singela à minha nova irmã mais velha. Sim, eu quero apresentá-la a você que, de alguma forma, também faz parte da minha vida. Se eu pudesse, faria o mundo saber da existência dela.
Talvez, isso possa ajudar você e a sua família.
Acredito que todos nós temos partes da vida que estão esperando um olhar mais compassivo, mais leve e mais acolhedor.
Nas melhores famílias, costumam existir questões mal-resolvidas, relacionamentos carregados de mágoas antigas, apegos inúteis, crenças e valores que afastam as pessoas ou pedaços de história que causam desconforto e por isso são jogados para debaixo do tapete, até que alguém, um dia, decida olhar para aquilo com coragem e limpar a sujeira.
Se for o seu caso, convido você a dar um passo atrás e enxergar a situação sob uma nova perspectiva. Talvez, a vida esteja te dando a oportunidade de ressignificar.
Quem sabe quantas histórias como essa todos nós carregamos, esperando o momento certo para serem ressignificadas?
Que meu relato possa inspirar você a olhar para sua própria história com menos julgamento, mais empatia e generosidade, acolhendo as surpresas da vida com o coração aberto. Pois, como disse o grande Chico Xavier:
— Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.
Grande 4braço
#TamerJunto






Uma história muito inspiradora! Obrigada por compartilhar ❤️❤️❤️